1 Antropologia como saber científico: objeto e método1 Etimologicamente



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1 Antropologia como saber científico: objeto e método1
Etimologicamente, a palavra antropologia deriva de duas palavras – anthropos, que significa homem; logia que significa estudo, logo antropologia é o estudo do homem. E como saber científico ela preocupa-se em conhecer cientificamente o ser humano na sua totalidade, conferindo-lhe desse modo o tríplice aspecto:

  1. Ciência social: tem como proposta conhecer o homem enquanto membro integrante de grupos organizados;

  2. Ciência humana: neste caso se propõe a estudar o homem em sua totalidade, buscando investigar sua história, suas crenças, usos e costumes, filosofia, linguagem, dentre outros aspectos; e

  3. Ciência natural: volta-se ao estudo do homem e sua evolução destacando o conhecimento psicossomático2 do mesmo.

Podemos afirmar que a antropologia é a mais cientifica das humanidades e a mais humana das ciências. Seu objetivo visa ao estudo holístico da humanidade, de suas origens, desenvolvimento, organização política e social, religiões, línguas, artes e artefatos. É a ciência que mantém relação com as duas outras ciências: a biológica e a cultural, sendo que com a primeira concentra-se nos aspectos físico e a segunda no aspecto cultural.
Conceituação: Antropologia em sua definição mais ampla é a ciência que estuda o homem, suas produções e seu comportamento. Interessa-se pelo homem como um todo – isto é, como ser biológico e ser cultural, têm como preocupação revelar os fatos da natureza e da cultura. É a ciência que tenta compreender a existência humana em todos os aspectos, no espaço e no tempo, partindo do princípio da estrutura biopsíquico. Busca também compreender as manifestações culturais, do comportamento e da vida social.

Origem histórica da Antropologia: No século XIX, o mundo passa por uma série de transformações, deixa de ser direcionado pelo saber filosófico, abrindo-se para um novo tipo de saber, sistematizado e metódico (saber científico) e nesse processo o ser humano, deixa de ser objeto de estudo da filosofia, tornando-se fontes de estudos científicos, vindo se configura em novos campos de saber especialmente dedicados ao seu conhecimento: a sociologia, a psicologia, e a antropologia.

Esse florescer de novas ciências decorre, sobretudo, do contexto histórico específico no momento da desagregação da sociedade feudal e da consolidação da civilização capitalista, no final do século XVIII. Este fato histórico trouxe consigo grandes transformações que abalaram a economia; a política e a cultura. Tudo isso era novo para o homem, sem falar em uma dupla revolução que este século testemunhou – a revolução industrial e a revolução francesa – possibilitou a instalação definitiva da sociedade capitalista.

Em razão desses acontecimentos de explicações científicas que atingiram a natureza humana residiam em parte nos problemas que a sociedade enfrentava oriundos da urbanização, industrialização, expansão imperialista européia na Ásia e África, como também a aceitação e credibilidade do pensamento cientifico no ocidente, foi um dos aspectos que contribuíram para o desenvolvimento das chamadas ciências humanas.

Tais acontecimentos exigiam o surgimento de teorias e métodos novos, no sentido de dar conta do planejamento social que garantisse o sucesso a economia industrial e sua expansão pelo mundo, a crescente complexidade da vida humana gerada pela industrialização e urbanização e o alargamento dos horizontes científicos com o intenso intercâmbio entre povos e nações.

Nesse bojo de acontecimentos emergem dentre as Ciências Sociais: a antropologia e a sociologia, que definem de forma satisfatória seus objetos de estudos, seus objetivos e métodos. Sendo que a sociologia foi destinada o estudo da sociedade européia, á antropologia coube o estudo dos povos colonizados na África, Ásia e América.

A sociologia tem como objetivo procura descobrir as leis gerais que regulamentavam o comportamento social e as transformações da sociedade, por meio de análises qualitativas e quantitativas (estudos estatísticos) que viesse dar maior amplitude as suas descobertas. Por sua vez a antropologia, fazia uso de um método mais empirista e qualitativo, centrando sua descoberta nas particularidades das sociedades que estudava. Tais procedimentos teórico-metodológicos foram importantes no alvorecer das ciências humanas e sociais, tendo em vista permitirem o desenvolvimento singular dessas novas áreas de conhecimento.



Campo de estudos da antropologia: A antropologia como campo de estudos apresenta vários ramos: A antropologia física, também conhecida como biológica humana, é o estudo da evolução da espécie humana e preocupa-se em explicar as causas da atual diversidade das populações humanas. Na investigação da pré-história humana, a antropologia física utiliza as técnicas da arqueologia, da paleontologia, da genética, da serologia e aquelas desenvolvidas do comportamento dos primatas e na ecologia.

O estudo da cultura material trata da arte e dos artefatos do ser humano tanto no presente quanto no passado. Inclui estudos das artes, dos instrumentos musicais, das armas, das roupas, das ferramentas e dos implementos agrícolas de diversas populações e todos os outros aspectos tecnológicos dos quais o ser humano lança, mão para controlar, moldar, explorar e melhorar seu ambiente social ou natural. A antropologia social e cultural trata, respectivamente, do estudo comparativo das sociedades humanas contemporâneas e de seus sistemas culturais, embora exista uma diferença de ênfase entre essas duas abordagens.

No Reino Unido, a antropologia social prepondera, enfatizando as dimensões sociais da vida humana. O ser humano é um animal social, organizado em grupos que regulam e perpetuam a si próprios, e é a experiência do ser humano, como membro da sociedade, que molda sua visão de mundo. A partir dessa perspectiva, a cultura é vista como um dos meios com que o ser humano organiza e legitima sua sociedade e fornece a base para sua organização social, política e econômica.

Nos Estados Unidos, a antropologia cultural dá maior enfoque aos sistemas de símbolos, idéias e significados que constituem uma cultura e dos quais a organização social é apenas uma expressão. Na prática, as diferenças de ênfase entre a antropologia social e cultural proporcionam perspectivas complementares e valiosas sobre dois temas centrais – como os grupos humanos organizam-se e como eles vêem o mundo que também habitam. Em outras palavras, ao estudar um grupo de seres humanos, é necessário estudar as características tanto da sociedade quanto da cultura.

Ao estudar uma sociedade,3 os antropólogos investigam os seus modos de organização em grupos, hierarquia e papéis. Essa organização revela-se em suas ideologias e religiões dominantes, em seus sistemas políticos e econômicos, nos tipos de laços que o parentesco e a residência contígua criam entre as pessoas de diferentes origens e gêneros. As regras que sustentam a organização de uma sociedade e o modo como ela é simbolizada e transmitida fazem parte da cultura desta sociedade.

Os primeiros focos dos estudos antropológicos: Os primeiros estudos em torno da ciência antropológica se voltaram para as populações que não pertenciam à civilização ocidental, os antropólogos optaram assim por estudar as sociedades ditas “primitivas” denominadas também de sociedades exóticas (os selvagens).

As sociedades estudadas pelos primeiros antropólogos são sociedades longínquas às quais são atribuídas as seguintes características: sociedades de dimensões restritas; que tiveram poucos contados com os grupos vizinhos; cuja tecnologia é pouco desenvolvida em relação à nossa; e nas quais há uma menor especialização das atividades e funções sociais. São também qualificadas de “simples”; em conseqüências, elas irão permitir a compreensão, como numa situação de laboratório, da organização “complexa” de nossas sociedades.

É interessante que logo após a afirmação de métodos e objeto de pesquisa a ciência antropológica, percebe que o objeto empírico que havia escolhido (sociedades primitivas) está desaparecendo; tendo em vista o próprio universo dos “selvagens” não é de forma alguma poupado pela evolução social. Desse modo, esta ciência se ver confrontada numa crise e identidade, que perdura por um determinado período, mas em seguida ela encontra outro espaço de investigação que são as populações rurais (camponeses) que de alguma forma foram deixados de lado pelos outros ramos das ciências do homem4. Atualmente a antropologia voltou-se aos temas de pesquisas mais familiar, isto é, situados no espaço urbano, oferecendo ao mundo acadêmico sua contribuição nesse novo modo de olhar, ver e escrever os problemas de cunho cultural e social como bem especifica seu objetivo.

Métodos e técnicas da antropologia: A antropologia é uma ciência social e humana, com campo de atuação, métodos e técnicas bem definidos. Oferecendo ao antropólogo observar e classificar os fenômenos, analisar e interpretar os dados obtidos pela pesquisa, capacitando-os a estabelecer as correlações e generalizações.

Tendo a antropologia dois campos de investigação (biológico e o cultural), necessário se faz a distinção entre método5 e técnica6 pertences a cada campo de investigação. A antropologia física ou biológica e a cultural recorrem a determinados procedimentos a fim de atender a seus objetivos de maneira mais fácil e segura. Para isso, valem-se de vários métodos e técnicas que, muitas vezes são utilizados concomitantemente.



Método histórico: consiste em investigar eventos do passado, a fim de compreender os modos de vida do presente, que só podem ser explicados a partir da construção da cultura e da observação das mudanças ocorridas ao longo do tempo. Neste tipo de análise histórica, a cultura do homem é desvendada. Exemplo: Origem e mudanças da sociedade Xavante.

Método estatístico ou também quantitativo: muito usado no campo da antropologia biológica, pois busca verificar as variabilidades das populações é também utilizado no campo da antropologia cultural, quando visa levantar a diversificação dos aspectos culturais. Neste tipo de método os dados depois de coletados são reduzidos a termos quantitativos, demonstrados em tabelas, gráficos, quadros, dentre outros. Possibilitando a verificação da natureza, ocorrência e o significado dos fenômenos e das relações entre eles, tanto de natureza biológica quanto cultural. Exemplo: dimensões do corpo humano, grupos sanguíneos, variedade de religiões, diversificação de habitação.

Método etnográfico: centra-se em fazer à análise descritiva das sociedades humanas, principalmente das primitivas ou ágrafas e de pequena escola. Mesmo o estudo descritivo requer alguma generalização e comparação, implícita ou explicita. Refere-se a aspectos culturais. Este método consiste no levantamento de todos os dados possíveis sobre as sociedades ágrafas ou rurais e a sua descrição, com a finalidade de conhecer melhor o estilo de vida ou a cultura especifica de determinado grupos. Exemplo: estudo dos índios do Alto Xingu e dos Yanomani, de Roraima.

Método comparativo e etnológico: muito utilizado pelos antropólogos físicos quanto pelos antropólogos culturais. Esse método permite verificar diferenças e semelhanças apresentadas pelo material coletado.

Esse método quando usado pela antropologia física compara aspectos físicos, populações extintas, através dos fósseis ou grupos humanos existentes, analisando características anatômicas: cor da pele, do cabelo, dos olhos, índice cefálico, textura dos cabelos, grossuras dos lábios, dentre outros aspectos. Exemplo: através do estudo dos fósseis, é possível verificar a evolução dos hominídeos, a distinção entre homem e primata. A análise de populações humanas vivas possibilita constatar as diferenças raciais.

O método comparativo e etnológico é usado também pela antropologia cultural, nesse caso ele procura comparar padrões, costumes, estilos de vida, culturas do passado e do presente, ágrafas ou letradas. Verificar diferenças e semelhanças a fim de obter melhor compreensão desses grupos. Exemplo: populações indígenas, rurais e urbanas, instituições (família, religião, política, economia), usos e costumes, linguagem, habitações, meios de transportes, dentre outros.

Método monográfico ou estudo de caso: o etnógrafo estuda, em profundidade, determinado caso ou grupo humano, sob todos os seus aspectos. Esse método permite a análise de instituições, de processos culturais e de todos os setores da cultura. Os grupos isolados estão a exigir pesquisas, antes que desapareçam como cultura, pelos contatos ou pela dizimação. Exemplo: índios Makuxi, de Roraíma.

Método genealógico: que permite o estudo do parentesco com todas as suas implicações sociais: estrutura familiar, relacionamento de marido e de mulher, pais e filhos e demais parentes, informações sobre o cotidiano, a vida cerimonial (nascimento, casamento e morte). Esse dado possibilita ao pesquisador não só a confirmação de seus dados já observados, mas também novas informações poderão vir a luz. Exemplo: sistemas de parentesco dos índios Tupi, genealogia de grupos étnicos minoritários (japoneses, poloneses e outros).

Método funcionalista: neste caso, o pesquisador tomará por base o estudo da cultura sob o ponto de vista da função, isto é, a funcionalidade de cada unidade da cultura no contexto cultural global. Este método tem como uma de suas características é descobrir as conexões existentes em uma e cultura e saber como funcionam. Exemplo: averiguar as funções de usos e costumes de determinada cultura que levam a uma identidade cultural.

Técnicas de pesquisa em antropologia: A antropologia biológica recorre a técnicas clássicas da antropologia física, isto é, a mensuração, ao lado de outras mais modernas, de datação. No campo da antropologia cultural, o antropólogo desenvolve recursos e técnicas de pesquisa ligada á observação de campo. Nesse caso irá aplicar a técnica da observação direta, que se completa com a entrevista e a utilização de formulários para registros de dados.

A técnica da observação: neste caso o pesquisador vai se valer dos sentidos para a obtenção dos dados – ver e ouvir, principalmente. A observação pode ser sistemática, quando os fenômenos são observados sistematicamente, em determinado período de tempo, divide-se em dois casos: direta: os fatos são observados pessoalmente, no local da investigação; indireta, os fatos são investigados por meio de outras pessoas.

A observação participante, neste caso o antropólogo tem a oportunidade de permanecer no campo, por muito tempo, o suficiente para a perfeita compreensão cultural em estudo. Seu instrumento de trabalho é o diário de campo, utilizando para o registro de seus dados, complementados com fichas, onde os assuntos devem ser selecionados criteriosamente. Fotografias, gravações e filmes complementarão as informações.



Técnica de entrevista: trata-se do contato direto, face a face, entre o pesquisador e o entrevistado, afim de que o primeiro obtenha informações úteis a seu trabalho. Pode ser:

  1. Dirigida: quando segue um roteiro preestabelecido;

  2. Não dirigida oi livre: quando é informal e não há um roteiro a ser seguido, e o pesquisador leva o entrevistado a manifestar suas idéias espontaneamente.

Técnica de aplicação de formulários: trata-se do levantamento de dados através de uma série organizada com perguntas escritas, cujas respostas deverão ser dadas pelo entrevistado.

BIBLIOGRAFICA:

LAPLATINE, FRANÇOIS. Aprender antropologia. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.



SANTOS, R. J. Antropologia para quem não vai ser antropólogo. Porto Alegre: Tomo editorial, 2005

1 Este texto é um resumo de algumas leituras realizadas em torno de alguns autores chaves (referencia na bibliografia) da antropologia que contribuíram de modo decisivo para que estudantes de outras áreas de conhecimentos (não antropólogos) venham entender em linhas gerais o significado, objeto e método da antropologia.

2 Psicossomático – adjetivo que concerne simultaneamente ao corpo e ao espírito. Ligado especialmente a fatores de ordem psíquica (conflitos).

3 Keesing. (1997) define sociedade como uma população marcada por um relativo afastamento das populações circunvizinhas e por uma cultura distinta.

4 A pesquisa etnográfica cujo objeto pertencente à mesma sociedade que o observador foi, de início, qualificada, pelo nome de folklore. Foi Van Gennep que elaborou os métodos próprios desse campo de estudo, empenhado em explorar exclusivamente (mas de uma forma magistral) as tradições populares camponesas, a distância social e cultural que separa o objeto do sujeito, substituindo nesse caso a distância geográfica da antropologia “exótica”.

5 Segundo Calderon (1971: 165), Método “é um conjunto de regras úteis para a investigação, é um procedimento cuidadosamente elaborado, visando provocar respostas na natureza e na sociedade e, paulatinamente, descobrir sua lógica e leis”.

6 Calderon (1971: 165), técnica “consiste na habilidade em usar um conjunto de normas para o levantamento de dados.




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