1 – meu refúgio



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1 – MEU REFÚGIO
No papel, todos os meus sentimentos. Meu melhor amigo eram os versos, através dos quais expressava o que sentia, viajava sem malas. Escrevia para eternizar minha vida, assim concretizava meus sonhos, quer matizados, quer lúgubres.

Passei minha vida sonhando, mas não me arrependo. Sonhar é bom, pois os sonhos nos incentivam a viver. Contudo, às vezes, a realidade fazia-me pôr os pés no chão de maneira bastante cruel.

Ainda me lembro da primeira música que aprendi. Não fui eu quem a fiz, e tive muita dificuldade para executá-la. Era “Labamba”, de Rich Vallens. Logo que alcancei uma certa segurança, fui me exibir aos meus colegas. Em pouco tempo, eles já não agüentavam mais me ouvir tocar a mesma música! Por isso me vi frente ao desafio de aprender outras, e treinar, treinar...

Passei muito tempo aprendendo e praticando, parecia que minha vida era só tocar violão. No começo, a dificuldade com a coordenação motora me impedia de executar as músicas que queria. A dor na ponta dos dedos fez-me pensar em desistir, mas logo vieram os calos que, sem dúvida, acabam por nos proteger da dor. Quanto mais calejados ficamos, mais facilmente enfrentamos os obstáculos da vida.

Outra dificuldade inesquecível foram as pestanas das diferentes notas. Elas exigem a habilidade de prender todas as cordas com o dedo indicador aplicado sobre o braço do violão. Porém, como diz o ditado, o tempo traz a perfeição e, pela persistência, eu já me considerava um bom músico.

Crescia em mim a vontade de criar. Já não me satisfazia com o que havia sido inventado por outros. Eu queria algo meu.

Certo dia ouvi um cantor dizer que três acordes bastavam para se fazer uma música. Eu já sabia muitos acordes, com pestanas e sem pestanas. Criei então coragem para fazer minha própria música. E ela tinha quatro acordes!

Era uma manhã chuvosa, assentei-me e compus alguns versos. Na verdade, escrevi para tentar me encorajar, pois a chuva há tempo levara meu alento... Nada parecia animador:


Onde está Você
Vamos parar para pensar,

O que estamos fazendo.

O mundo um dia acabará,

E onde estará você?

Precisamos de coragem para dizer.

Precisamos de coragem para viver.

Se o mundo hoje acabar, onde estará você?
A música estava pronta. Muito empolgado, fui mostrá-la aos meus amigos, afinal, eu já sabia tocar bem. Essa canção tinha muito valor para mim, cada verso era sincero. Queria que outros também compartilhassem essa minha proeza.

Todavia, minha alegria durou pouco. Eles riram-se de meus nobres versos e Marcelo, um dos meus amigos, me disse:

- Ok, agora toque “Labamba”!

Depois desse dia refugiei-me nos meus versos e em minhas músicas. Era um mundo que me dava liberdade para escrever tudo o que pensava, tudo o que era. E tudo isso era só meu, não mostrava nada a ninguém, minhas canções eram meu diário secreto, o recôndito de minhas intimidades.

Na rua, todos gostavam de meu violão. Cantávamos de tudo, menos a minha música. Tínhamos um repertório longo: “Será”, da Legião Urbana, foi a primeira que decorei, por ser mais fácil; depois vinha “Lanterna dos Afogados” (Paralamas do Sucesso), “Pra ser sincero”(Engenheiros do Hawaii), “Pais e filhos”(Legião Urbana), “Eduardo e Mônica”(Legião Urbana), “Óculos”(Paralamas do Sucesso), “Marvin”(Titãs), “Faroeste Caboclo”(Legião Urbana), “Love me do” e Can’t buy me love (Beatles) e, finalmente, “Labamba”(Rich Vallens).

Nessa época, acrescentei mais uma música ao meu repertório particular. Estava muito triste e, nada melhor do que compor para tapar o buraco da dor. Em minha mesa, uma caneta, dando forma à canção que revelava as reminiscências de meus oito anos.


Tudo Mudou
Qual é a garantia que temos,

Neste mundo de horror?

Foram maus momentos

Que bom que tudo passou!


Agora que tenho você,

Tudo mudou.

Não quero mais me esquecer,

Você sempre me amou.

A vida passa como o vento,

O que mais poderá acontecer?

No escuro nada é seguro

Mas um fio de luz clareia tudo.


Agora que tenho você,

Tudo mudou.

Não quero mais me esquecer,

Você sempre me amou.


Não quero colher o que plantei,

Quero sementes novas, brotando como o amor.

Pétalas em forma de coração

Na paz de minha oração.


Às vezes eu gostava de escrever apenas pelo hábito. Quando falava de amor, isto me parecia algo tão distante, contornava toda uma poesia para tentar dizer algo que realmente desconhecia.

Um dia, um grande compositor disse em rede aberta: “Não existe amor...”. Essa frase calou fundo em minha alma. Não era só eu que não acreditava no amor: ele também, alguém que eu tanto admirava. Tinha em suas palavras o meu argumento. Também não acreditava e não acreditaria no amor. Era óbvio: se o amor existisse, e se fosse bom, não causaria sofrimento, ciúmes, ódio, dor. Não causaria a morte, como no caso de “Romeu e Julieta”. Não haveria brigas. Se o amor fosse bom, não ficaríamos com feridas. É claro que eu só pensava assim porque não conhecia o amor. Mas, naquela época, tal sentimento, ainda vedado a mim, era-me de todo incompreensível, por isso mantive esse pensamento contraditório por muito tempo.

Muitas vezes eu não compreendia o que se passava dentro de mim.

Para um compositor, ou qualquer adolescente, o mundo gira em torno dos sentimentos. Se estou feliz, tudo ao meu redor reflete esse momento de felicidade; tudo é bom e lindo. Se algo me entristece, a depressão logo toma conta de meu coração e tudo se transforma em melancolia, como se fosse um filme medieval, tudo cinza, tudo trevas. É difícil de se entender as proporções exatas, pois a felicidade é frágil, dura pouco, enquanto que a tristeza é um lago profundo, que nos envolve, podendo até nos afogar com seus tentáculos invisíveis. A vida parece um eterno maniqueísmo, a luta do bem contra o mal.

Eu queria tanto ter um verdadeiro amigo, mas tinha medo de confiar em alguém. E se ele zombasse do meu talento? Naquele dia, quando exibi minha primeira música, meus amigos riram de mim e essa lembrança sempre me acompanhou, a trazer-me insegurança. Talvez era por isso que, ao invés de cercado por amigos, eu me via cercado por incertezas.

Naquela época de transformação, quando procurava entender o mundo, não mais através do olhar de uma criança, e nem ainda através do de um adulto, sentia muito medo – o que aconteceria? O que faria de minha vida? Através da caneta escrevia o que queria, o que sonhava, e como via o que queria ver. Mas no mundo real tudo era muito confuso para mim. Queria continuar meus estudos, mas não conseguia definir o que fazer. Queria amar, mas não acreditava no amor. Queria ter um amigo, mas não conseguia confiar em ninguém. Somente uma coisa era certa para mim: sonhava ser famoso, poder tocar e cantar minhas músicas, ser admirado e respeitado pelo que fazia e até mesmo ser rico – afinal de contas, será que era querer demais?



==>Era difícil aceitar que precisava sair de meu casulo. Não conseguia me conformar com as coisas do jeito que elas eram! Queria viver em um mundo onde não seria preciso crescer, eu não queria passar por aquela metamorfose, pois parecia que isso não me traria bons ventos. E, nessa época difícil de minha vida, escrevi mais uma canção para dizer como seria bom se os valores que aprendemos com os nossos pais estivessem presentes nesses momentos conturbados. Nessa época de rebeldia, muitas vezes não compreendemos certos conselhos e nos revoltamos contra certos princípios. Mas, quando crescemos, reconhecemos que, na verdade, somos iguais aos nossos pais.

Opus nº 3

Seria bom se os valores fossem iguais,

Seria o fim da busca.

Nunca sou o mesmo, não me afirmo

Seria bom gostar de alguém,

Mas não sou assim.

Não é assim que vejo,

Não é assim que sinto,

Não é assim comigo.
A vida tem dessas,

Quero ficar te esperando

Quero roubar das nuvens o seu mistério

E embalsamar o ontem,

Pois o hoje não dá mais.
Não é assim que vejo,

Não é assim que sinto,

Não é assim comigo.
Ainda nessa época de transição, levei um golpe do destino: a vida me traíra, a morte prevalecera. Demorei para entender o que estava acontecendo, parecia que o mundo desabara sobre mim, e o fardo era muito penoso. Na madrugada do dia 30 de setembro, expressei minha solidão:
Lágrimas de Setembro
Uma tarde de chuva,

Uma lembrança de Setembro

Você me deixou,

Nós éramos amigos

Por que foi embora, sem dizer nada?

Brincávamos juntos

Na praia, na casa e no parque.

Foi essa minha última lembrança:

Uma noite, um “boa noite”.
Por que foi embora, sem dizer nada?

Choro sua falta

Os dias se entristeceram,

Mas a resposta enfim chegou:

Sei que foi Deus quem te levou.
Tal fato abalou toda a minha estrutura, já tão frágil. Muitos queriam ficar perto de mim, queriam me consolar. Mas o tempo passou, e eles acabaram por se esquecer da minha dor. Cada vez mais introspectivo, queria me distanciar de todos e guardar toda aquela angústia dentro de meu peito. Para mim o mundo era cruel, mas não queria que sentissem pena de minha solidão. Minha mãe parecia deslocada também. Pressenti que ela não agüentaria a falta de meu pai. Mas eu precisava ser forte, mesmo que só nas aparências.

Passei meses na inércia. O violão era apenas mais um objeto no meu quarto. Mas a caneta estava comigo. Ninguém me conhecia, somente o papel e a minha poesia. Pensando nisso, um dia menti para mim mesmo e resolvi escrever uma canção. A música me veio em sonho, sonhei com a letra, sonhei com a melodia. Acordei, no frescor da manhã, e escrevi:


Ruínas do Coração
Dunas estranhas, vidas que passam,

Ondas que viajam no mar.

Vidas que passaram, vidas que já se foram

Onde tudo isso vai dar?


Já matei, Já fugi,

Já cansei, Já menti.


E onde está você, minha poesia?

Por que fugiu de mim?

Onde está o amor?

Por que o tirou de mim?


Não sei se vou me curar,

Não sei se vou sobreviver,

Sou assim desde menino...
E o fim, já é passageiro,

Corro como as ondas do mar

Fujo de toda ação,

Escondo-me nas ruínas do meu coração.


Animei-me a compor, parecia que o sonho me dizia: “Acorde! Tire o pó do violão e faça alguma canção!” E assim fiz, naquele princípio de verão, escrevi quatro músicas.

A primeira, intitulada “16 de Junho”, fazia-me lembrar de onde encontrar a verdadeira paz, meu tão almejado porto-seguro. (Sempre tive dificuldade para nomear minhas obras! Acabava por colocar o primeiro nome que me vinha na cabeça...)


"16 de Junho"
Com a mesma mão que escrevo estes versos,

Espanco minhas tristezas.

Com a mesma mão que toco essa canção,

Aponto seus erros, e não vejo os meus.


Não compreendo este governo ateu,

Que acaba com as esperanças da juventude

Por que agir assim?

É tão ridículo ser feliz?

Eu sou o que meu coração quer ser.

Quero ir para casa de meu Pai,

Onde posso viver em paz,

E andar em seus eternos jardins,

Recebendo seu perfeito amor.
E, logo depois, comecei a escrever “Fica algo em nós”. Parecia que eu tinha uma sede de esperança e, por isso, precisava urgentemente expressá-la através do papel e da música.
Fica Algo em Nós
Se o sonho for muito grande, pode acontecer

Basta só acreditar e você será capaz

Imaginar que é bom, persistir na esperança

E então o sonho sai das telas...

Posso até voar se quiser,

E me esconder nos abismos dos oceanos.

Tudo agora é tão real.

Veja, as árvores estão crescendo!

Olhe o mato ao seu redor

Se o mato matasse a morte,

O sonho seria melhor!
Seria capaz de viajar,

Sem tirar os pés do chão.

E a vida vai passando,

Mas estamos longe do fim.


Lembrar-se dos que se foram

É nunca deixar de amá-los

Tudo um dia vai embora, tudo acaba,

Mas sempre fica algo em nós.


Resolvi ligar a televisão, no entanto, nada havia de interessante e construtivo. Só via gente imitando gente (e, às vezes, animais...). A moda não tem nada de criativo! Refletindo sobre isso, compus:
MODA
Por que tudo na vida é moda ?

Os ritmos vão e voltam,

E as saias curtas estão de volta.

Os cabelos compridos já foram embora.


Até quando os desenhos japoneses serão moda?

“Ficar” ainda é moda?

Devemos copiar tudo e distorcer tudo?
Vivemos num país sem glórias passadas,

Num país de modas estrangeiras.

Nada do que vejo é original,

Somos apenas cópias descartadas...


Parecia que essa seria a última do dia, daquele dia que passou num piscar de olhos. Estava satisfeito com meu trabalho, minha inspiração, meus versos. Três músicas estavam no papel mas, para fechar com chave de ouro, fiz uma introdução com base em Dó maior, e compus:

Este Dia
São só palavras que não caíram bem.

Foi o que disseram,

Foi o que eu disse.

Cada página virada é um capítulo,

É algo que aprendi para o futuro.
São duas escolhas, e eu sigo a melhor

Por isso lembrei-me de dizer “bom dia” para o dia,

Mesmo que a chuva esteja entre nós.
E ao anoitecer, ver que somos felizes,

Pois aproveitamos cada minuto,

E enterramos todas as decepções.
Era como uma energia que emanava de mim para a caneta, desta, para o papel, e deste, para cada acorde, transformando-os e unido-os a cada nova canção. A música era meu consolo, minha forma de curar feridas. Ela remendava meu coração partido, dizendo-me que ainda havia esperança.

E assim se passaram as semanas, os meses, a roda da vida, repleta de altos e baixos.

Nos dias em que me sentia num buraco negro, sentava no escritório e escrevia. Os sentimentos sombrios conseguiam aniquilar qualquer esperança. Via as pessoas comendo e bebendo, pareciam tão felizes... Mas não queria ser como elas: meus princípios eram diferentes. Não agüentava ver o show da vida e a forma como as pessoas eram (e são até hoje) manipuladas.

Quando me sentia mais positivo, saía com alguns colegas, calando em mim aquele desejo de carregar o mundo e suas infelicidades. Com eles, conseguia me esquecer de toda a minha vã paranóia. No entanto, quando sozinho, tudo estava lá, de novo a me atormentar. Pensava que, na verdade, só havia sido realmente feliz na minha infância.

Quando em companhia de meus colegas, olhava com desprezo para as meninas e os outros meninos de minha idade. Parecia-me que as garotas só se interessavam em rapazes que tinham carros, que usavam roupas de marca, que tinham dinheiro para gastar. Esses, em sua maioria, não tinham muito sobre o que falar, suas palavras resumiam-se em gírias pobres e modas copiadas que nem mesmos podiam compreender. No fundo, eu queria conhecer alguém que pudesse ver além das aparências. Tudo isso me inibia, essa constante incerteza, como se fosse uma venda em meus olhos, boca e ouvidos.

Disso tudo surgiu:



Não Sei
Como podemos estar acordados

Em um dia como este?

Nada passa na cabeça

Nem o tempo passa...

Dias como este quando queremos

Ver um rosto amigo

Ou só um “oi”, para amenizar a dor .
Venha, eu quero cantar

Não sei bem o que quero dizer,

Nada é tão simples

Para quem não sabe viver.


Não me diga o que fazer

Ainda temos que viver!

Feliz é todo aquele que não vive

Com medo de morrer?

Como vou acordar

Se o dia é para dormir?

Como vou passar o tempo?

Isso eu não sei.


2 - UMA LINDA ESTRELA
Cada dia é um novo dia, o futuro pode trazer muitas surpresas. O tempo voava, e com ele, as estações.

O verão se aproximava forte, e a onda de calor, o sol, seus raios, tudo parecia me recarregar de energia e de ânimo. Os dias mórbidos haviam ficado para trás e tudo vinha embelezado de vida e de esperança. Verão, para mim, combinava com praia e, naquelas férias, decidimos passar quinze dias em Caraguatatuba, litoral paulista, meu primo, Amadeus, e eu.

A praia é um mar de poesia! Do horizonte infinito, onde água e céu confundem-se num esplendor de amplitude, as ondas vinham beijar a praia, e a brisa que refrescava meu corpo fazia as palmeiras bailarem num som peculiar. Eu estava em harmonia com a natureza e me sentia parte de tudo aquilo. Meus pés afundavam-se na areia que parecia me dizer “Fique comigo!”. Era um cenário perfeito para a paz e para o amor. Sentado na areia, contemplava tanta beleza e, sonhando, dava asas à minha poesia. Não tinha papel, estava sem meu violão mas, jogado ali, um palito de picolé e a vastidão da areia. A praia estava quase deserta, o sol se despedia do mar. Agachei-me e escrevi:

Sinto a calma que está no ar

A distância é curta para se percorrer.

Sem medo do desconhecido,

Revelo os selos da recompensa.
Não sou um alvo, porém atiram em mim

Mas posso ser a pedra que quebra sua janela

Para levar meu recado de amor.
Não me importo se o acaso cair em mim

Já construí minha fortaleza

Só faltam as flores para completar meu jardim.
Subi nas pedras, de onde poderia ver toda a praia. Os reflexos do sol deram seu último brilho de luz sobre minha poesia, escrita em letras gigantes. Porém, em menos de dez minutos, as ondas chegaram e a levaram consigo mar adentro. Só ficou a mensagem gravada em meu coração, onde água nenhuma poderia alcançar.

Amadeus gostava muito de sair à noite. Geralmente, eu já estava muito cansado e não tinha ânimo para as noitadas à beira-mar. Mas, um dia, resolvi sair com ele.

Vi uma multidão, gente de todos os tipos, de todas as raças. Uma confusão de músicas ensurdecedoras machucavam os meus ouvidos. Como a cultura brasileira havia se rebaixado! Aquele calçadão me horrorizou e eu, já por natureza um tanto insociável, não agüentei ficar lá. A ordem que deve existir para que o homem viva bem com seu semelhante estava longe de reinar naquele lugar.

Retirei-me daquela depravação urbana e resolvi voltar, seguindo a praia, para a casa onde estava hospedado. A lua estava linda, as estrelas cintilavam no céu. Já longe do calçadão, o som das ondas era a única melodia em meus ouvidos.

Como voltava a pé, e o caminho para a casa era longe, cerca de duas horas de caminhada, na metade do percurso parei para descansar. A melodia do mar parecia me acompanhar. O lugar estava completamente deserto. Sentei-me em uma mureta que dava de frente ao mar, onde poderia contemplar as estrelas. Vi uma luz fulgurante que atravessava o céu e que caía, em direção a um ponto longínquo, no mar. A lua brilhava na areia, como o sol havia brilhado em minha poesia. E, de repente, como uma aparição, meio oculta do reflexo do luar, vi uma silhueta, sentada, sozinha, bem perto da água.

Tive medo de me aproximar – ela poderia se assustar – afinal, estava tudo deserto, e é na solidão que mora o medo. Fiquei observando de longe, percebi que o som das ondas misturava-se ao som de suas lágrimas.

Súbito ela se levantou e correu em direção às águas negras. Vi cada gesto, tudo aconteceu em poucos segundos. Sem pensar duas vezes, corri também e me atirei ao mar. Ela, à princípio, debateu-se, mas depois, resignada e, certamente exausta, deixou-se levar até a praia. Enrolei-a na blusa que tirara antes de entrar na água e, com o calor de meu abraço, esquentei seu corpo que tremia, num misto de frio e de soluços.Ela olhou para mim e, como que não acreditando, perguntou-me se eu era um anjo. Que milagre era aquele? Aparecera na hora certa e no lugar certo. Meu coração batia forte e eu a segurava como quem segura um cristal frágil. Perguntava-me o que estava acontecendo, mas a resposta era tão desconhecida quanto aquele encontro inesperado. Parecia um conto de fadas totalmente real.

Talvez aquele encontro sobrenatural tenha sido a razão de nossa amizade instantânea. Talvez fosse apenas o acaso, que unira mais dois corações. De qualquer forma, depois de algum tempo, já conversávamos como se fôssemos dois velhos amigos. Juntos, sentados na areia, vimos o sol nascer. Eu não a conhecia direito, nem ela a mim, mas uma atmosfera de segurança nos unia. E então lhe perguntei: “Mas, por quê?” Ela, naquele momento, baixando os olhos tristes, confessou: “O amor não existe” .

Falamos sobre várias coisas, mas aquelas palavras não saíram de minha cabeça: “O amor não existe”. Levei-a para a sua casa e prometi que voltaria.

O sol já esquentava a cidade. Meu corpo estava quebrado, mas ainda pairava um clima de sonho, eu não conseguia coordenar direito o que acontecera, mas o sorriso de Lucy e suas palavras provavam-me que tudo fora real.

Chegando em casa encontrei Amadeus dormindo profundamente. Sorri para mim mesmo e pensei que minha noitada havia sido mais emocionante do que a dele. Antes de me deitar, escrevi em um pedaço de papel: “Será que isso é amor?”.

Quando acordei já se passava de três horas da tarde, mal comi alguma coisa e corri para a casa de Lucy. Antes mesmo de bater palmas eu a vi sair de sua casa, sorrindo, aquele sorriso que me acompanha até hoje. Seu rosto era meigo, delicado. Havia um quê de puro que a ornava, tornando-a ainda mais bela em seu traje simples – blusinha branca e saia colorida. Seu sorriso era como o sol da manhã, num céu sem nuvens, que brilha e alegra todo o mundo. Nem parecia a mesma pessoa que encontrara no dia anterior, tão desiludida. Entrei em sua casa e conheci seus pais e irmãos. Era uma família tão simpática, parecia bem-estruturada, o que comprova que as crises não respeitam classe social, gênero, credo ou idade.

O interessante é que muitos afirmam que o amor surge como uma paixão, um fogo ardente e consumidor. Mas, para mim, apareceu na forma de um sorriso doce e eterno. Através dele, o amor mostrou a sua face mais viva e intensa.

Naquele mesmo dia, quando Lucy mostrava-me sua casa, vi, em cima de uma mesa, em seu quarto, um guardanapo, com o seguinte escrito: “Sim, existe amor...”

Passamos muitos dias maravilhosos, quase todos os finais de semana eu ia para Caraguatatuba a fim de ver Lucy. Ela às vezes ia me visitar e passava alguns dias comigo, eram dias especiais, cheios de alegria.

Parecia que fôramos feitos um para o outro. Naquela época, no meu coração, não havia espaço para lágrimas. Havia uma grande necessidade de um estar perto do outro, era como se um fosse a canção e o outro a melodia. Finalmente, minha vida tinha algum sentido. Minhas poesias eram só para ela, minha vã paranóia já eram águas passadas, afinal, tudo agora era lindo e completo.

Gostava do seu jeito de ser, ela me compreendia e me apoiava. Fazíamos planos, e o futuro me parecia colorido e promissor. Nossa vida estava quase completa, eu sabia que a amava. Parecia uma eternidade que estávamos juntos e acreditava ter chegado o momento de revelar-lhe meus sentimentos mais profundos.

Todavia nosso amor durou apenas 350 dias. Não houve causa de desamor, mas parecia que uma força poderosa e destruidora perseguia o meu destino. Lembro-me como hoje o dia em que a encontrei sem o seu lindo sorriso. Lucy me chamou para um passeio, e fomos andando até a Prainha, caminhamos a pequena trilha que nos levava a Pedra do Jacaré, e ali sentamos e contemplamos a paisagem. Um silêncio devastador pairava no ar. Percebi que não conseguíamos ser nós mesmos e tinha medo de perguntar o que estava acontecendo. Lucy rompeu a quietude e disse-me:


- Belth, faz quase um ano que você apareceu em minha vida – eu olhei para os seus olhos e temi. Lucy continuou – Parece que nossos caminhos se cruzaram e que a partir desse dia, passamos a andar juntos – Concordei com ela, e deixei-a continuar – Mas eu descobri que há vários caminhos, e que as vezes não podemos seguir juntos – discordei plenamente.

- Se há um caminho eu posso seguir – eu disse a ela – Não diga que seu caminho aponta para outro lugar.

- Há caminhos que nos levam contra a nossa vontade, caminhos para uma pessoa só andar. Entenda, eu não quero desviar do nosso caminho, mas não posso levá-lo.

- Somente a morte pode me desviar do seu caminho – Eu disse enfurecido.


Malditas palavras. Eu vi os olhos de Lucy se fecharem, suas mãos tamparam a sua boca e o som abafado de seu choro confirmava o meu medo. Eu não sabia o que fazer, todas as minhas crenças naquele momento estava sobre um fio. Tive medo de perguntar o que estava obvio aos meus olhos. Ela me disse em prantos:
- Eu já não posso fazer mais nada, somente aproveitar cada segundo que me resta. Estou doente e acho que não posso acreditar em milagres, estou fraca para isso.
Olhei para ela, e o véu do amor despencou de meus olhos. Eu a vi magra e frágil, seu rosto não tinha mais o brilho de outrora. Eu não sabia o que dizer e nem como consolá-la. Em meu coração havia uma egoísta pergunta: Como vou ficar sem ela? A única coisa que pude fazer foi abraçá-la e chorar com ela.

Passamos muito tempo chorando, o dia passou e uma noite estrelada tornou parte da paisagem. Estávamos deitados na pedra, olhando para o céu e ela novamente rompeu o silêncio:


- Belth, olhe para o caçador – ela me apontou a constelação de Orion – ele sempre estará olhando para o Touro. Foi assim que você me ensinou. Faça o mesmo. Lembre-se de mim.
Novamente fui traído pela vida, a morte prevaleceu. Estava tudo tão perfeito! Desde nosso encontro mágico, eu devia ter percebido que era só um sonho maravilhoso. Éramos tão amigos, por que o destino sempre tirou de mim tudo o que me era mais precioso? Lucy foi a única que me aceitou do jeito que eu era, que não riu quando lhe mostrei um pouco de mim.

Sabíamos que o amor nada mais era do que uma infinita amizade, e essa sim, jamais poderia acabar, mas eu queria mais, muito mais.

A coragem de Lucy nos seus últimos dias foi o que me segurou. Achei que iria enlouquecer. Já havia convivido com a morte antes, mas nunca estamos suficientemente preparados quando ela reaparece.

A doença foi rápida e traiçoeira. Larguei tudo para ficar ao lado dela. Estávamos no hospital, onde ela já estava internada há seis dias. Eu me sentia mal ao vê-la, não conseguia ser eu mesmo. Ao contemplá-la no leito, alguma coisa me impulsionava a sentir aversão àquela situação. As vezes eu não tinha forças para conversar com ela. Cada olhar de seus olhos cansados destruía um pedacinho de mim.

O que mais me machucava era que a dor que ela sentia era maior do que a minha própria dor, e o pior de tudo era que eu não podia fazer nada para mudar aquela situação. Eu me sentia pequeno neste enorme mundo. Eu a via indo embora, devagar, e sua voz se enfraquecia a cada dia, e seu brilho de outrora era cada segundo mais opaco.

Naquele último dia, um olhar de medo me deu as boas vindas. Eu pensava comigo mesmo: “Nada pode me separar de você...” Mas eu sabia que isso não era verdade. Sentado ao seu lado, soluçava:


- Não pode ser assim que a vida funciona, nós éramos um, eu não vivo sem você! - Implorando, dizia-lhe - Não vá, eu preciso tanto de você! - Olhamo-nos demoradamente, eu percebi que minhas palavras não tinham o poder de salvar sua vida. No fundo, eu sabia que aquele seria o nosso último momento juntos. Não sabia o que mais dizer, meus olhos denunciavam o que estava sentindo, a dor, um antigo fantasma, voltava a me assombrar. Agarrava suas mãos, como se assim pudesse mantê-la comigo por mais tempo, não era justo que tudo terminasse daquele jeito! Sussurrei em seu ouvido:
- Lucy, você sempre será a mulher de minha vida, eu te amo! – Mas era tarde demais, ela já se fora, e minha declaração de amor ficou no ar, assim como o nosso primeiro beijo, no entanto, eu tive a sensação de ter sido correspondido. Palavras que nunca ousei dizer brotaram naquele momento, era como se ela ainda pudesse me escutar e, com seu lindo sorriso, me dizer o que eu tanto sonhava ouvir: “Eu também te amo!” Porém, tive que lhe dizer adeus, e minha angústia não condizia com a linda noite que se aproximava. Sentia-me perdido no mundo, só, desamparado, como um recém-nascido.

Não sabia o que fazer, nem aonde ir. Andei por horas a fio na praia, sem rumo, como se aquilo pudesse amenizar minha dor, que parecia eterna. Gritava para o vento: “Por quê? Por que ela tinha que ir embora?” Mas a única resposta era a canção do mar.

Tentei me concentrar em outras atividades, mas a perda fora grande demais para mim. E, entre lágrimas, escrevi para Lucy:



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