1- a fundaçÃo da aib no estado do rio de janeiro



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VI CONGRESSO BRASILEIRO DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS EDUCATIVAS

ESCOLAS VERDES: AS ESCOLAS DA AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA (AIB) NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. (1933-1937).

Pedro Ernesto Fagundes

pefagundes@uol.com.br


Resumo

A Ação Integralista Brasileira (AIB) ocupou uma posição de destaque no panorama político da década de 1930, sendo inclusive apontada como o primeiro partido de massa do Brasil. Estima-se que os integralistas chegaram a contar com quinhentos mil filiados espalhados em todos os estados, o que propiciou que nas eleições de 1936 fosse eleita uma numerosa bancada de vereadores, 20 prefeitos e 20 deputados estaduais adeptos da AIB. Para orientar, informar e doutrinar seus militantes a AIB também foi uma das primeiras organizações políticas do país a utilizar os meios de comunicação de massa. Através dos seus jornais e revistas os integralistas pretendiam ampliar seu capital político e atrair novos filiados. A Ação Integralista Brasileira (AIB) ocupou uma posição de destaque no panorama político da década de 1930, sendo inclusive apontada como o primeiro partido de massa do Brasil. Estima-se que os integralistas chegaram a contar com quinhentos mil filiados espalhados em todos os estados, o que propiciou que nas eleições de 1936 fosse eleita uma numerosa bancada de vereadores, 20 prefeitos e 20 deputados estaduais adeptos da AIB. Para orientar, informar e doutrinar seus militantes a AIB também foi uma das primeiras organizações políticas do país a utilizar os meios de comunicação de massa. Através dos seus jornais e revistas os integralistas pretendiam ampliar seu capital político e atrair novos filiados. O percurso histórico da AIB é repleto de fatos e acontecimentos marcantes, buscando ampliar sua inserção no meio da população, os “camisas-verdes” chegaram a fundar uma serie de ambulatórios médicos, lactários e escolas nas inúmeras “Províncias Integralistas”. No estado do Rio de Janeiro, principalmente, a partir de 1936, os integralistas fundaram dezenas de escolas de alfabetização e profissionalizantes que funcionaram como locais de divulgação da doutrina da AIB. Sendo assim, o objetivo da presente investigação é realizar uma análise das escolas fundadas pelos integralistas no estado do Rio de Janeiro.Sendo assim, o percurso histórico da AIB é repleto de fatos e acontecimentos marcantes, buscando ampliar sua inserção no meio da população, os “camisas-verdes” chegaram a fundar uma serie de ambulatórios médicos, lactários e escolas nas inúmeras “Províncias Integralistas”. No estado do Rio de Janeiro, principalmente, a partir de 1936, os integralistas fundaram dezenas de escolas de alfabetização e profissionalizantes que funcionaram como locais de divulgação da doutrina da AIB. Sendo assim, o objetivo da presente investigação é realizar uma análise das escolas fundadas pelos integralistas no estado do Rio de Janeiro.


1- A FUNDAÇÃO DA AIB NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Niterói, 1º de junho de 1933. Esse município fluminense foi palco da primeira conferência do líder máximo da Ação Integralista Brasileira (AIB) - Plínio Salgado - no estado do Rio de Janeiro. O local escolhido para a conferência foi o Liceu Nilo Peçanha, um dos prédios mais imponentes da região central da cidade. Localizado próximo a Praça da República, esse estabelecimento de ensino tinha como traços marcantes de sua arquitetura duas grandiosas torres que contribuíram para realçar a importância do colégio como um dos estabelecimentos de ensino mais tradicionais do estado.

A conferência do dirigente dos “camisas-verdes” aconteceu no Salão Nobre do colégio e atraiu a atenção de um público formado, em sua maioria, por professores e alunos do Liceu. Esse evento, que marcou o início das atividades da AIB no estado, teve como ponto alto a palestra - proferida por Plínio Salgado - intitulada “O que é o Integralismo”. 1

Poucas semanas depois, mais precisamente em 15 de junho, o Salgado esteve na cidade para, novamente no Salão Nobre do Liceu Nilo Peçanha, realizar uma segunda conferência. Como reflexo do sucesso de sua primeira palestra, nessa nova passagem por Niterói, Plínio Salgado foi recepcionado por dezenas de milicianos fluminenses devidamente trajados com as inconfundíveis “camisas-verdes” que saudaram seu líder supremo com o triplo anauê.

O tema da palestra - que simplesmente lotou as dependências do Salão Nobre - foi a “Exegese da Revolução”. Durante sua fala, que durou aproximadamente duas horas, foram ressaltadas as teses centrais que fundamentavam a base teórica da AIB. Em sua fala foram expostas as opiniões e a interpretação dos integralistas sobre a situação política do país. No final do evento os integralistas presentes aplaudiram o conferencista e depois cantaram o hino nacional.

O sucesso alcançado pela AIB foi quase imediato, considerando-se que inúmeras pessoas acabaram se juntando aos “seguidores do Sigma”. Entre os militantes pioneiros que vestiram a camisa-verde no estado do RJ podemos citar: Alberto Lamego Filho, Alcebíades Cunha, Amílcar Barcellos Marinho, Antonio da Cunha Motta, Benedito Silva, Getúlio Macedo, Hermes Barcellos, Lacerda Nogueira, Lealdino Alcântara, Manoel Figueira, Oswaldo Ferreira, Portugal Neves, Raul Stein, Thiers Moreira e Vital Menezes.

Assim, esses dois eventos representaram os primeiros passos da AIB no estado do Rio de Janeiro2 e significaram o início da trajetória do movimento na “Província Integralista Fluminense” que, durante seus poucos anos de funcionamento legal (1932-1937), se converteria numa das províncias que somaria o maior número de militantes e núcleos organizados em nosso país.

Tanto que, em 1937, a estrutura orgânica da AIB na “Província Integralista Fluminense” teria como suporte números realmente impressionantes, eram eles: um total de 220 núcleos municipais e distritais, que contava com 47 mil filiados, uma bancada de 30 vereadores, 11 postos de assistência médica, uma rede de escolas que contava com 124 estabelecimentos de ensino e uma imprensa local que chegou a editar uma dezena de informativos.

Como dissemos - mesmo fazendo todas as ponderações possíveis sobre os “dados oficiais” apresentados pelos integralistas - a proporção alcançada pelos “Soldados de Deus” no estado do RJ foi algo notável. Para atingir esse nível organizacional os “camisas-verdes” no estado do Rio de Janeiro não perderam tempo pois poucos meses após a fundação do núcleo de Niterói os integralistas começaram a espelhar-se pelo interior do estado e fundaram núcleos em dezenas de cidades e distritos.

Sendo assim, ao longo dos anos seguintes os integralistas fluminenses ocuparam-se prioritariamente da organização e estruturação da AIB no estado. Durante esse período foram organizadas caravanas, “bandeiras”, desfiles, conferências, enfim, um conjunto de atividades que visavam divulgar suas idéias e, assim, ampliar o número de militantes “camisas-verdes” no estado do RJ.

Possuir uma ampla rede de órgãos informativos e realizar desfiles era algo que não garantia que os integralistas tivessem fatos concretos para apresentar para seus leitores\eleitores. Entretanto, a partir do momento que adotaram a via eleitoral, por volta de 1936 os “Soldados de Deus” precisariam apresentar às “massas” mais do que apenas a sua retórica doutrinária. Nesse sentido, podemos verificar que foi exatamente nesse momento que ocorreu um adensamento das atividades de caráter social dos integralistas. Os trabalhos desenvolvidos nas escolas, ambulatórios, asilos, enfim, as atividades sociais passaram a ocupar – durante os períodos pré-eleitorais - cada vez mais espaços nos órgãos informativos da AIB.

Obviamente, esse adensamento das atividades sociais, verificada a partir de tinha como finalidade garantir a ampliação do volume de votos dos seguidores de Plínio Salgado. Porem, antes de prosseguirmos, é importante salientar que os integralistas já realizavam atividades no campo da assistência social.

Contudo, inegavelmente, o que gostaríamos de ponderar mais uma vez é que essa preocupação intensificou-se com a aproximação das eleições, em outras palavras, a área social da AIB também passou por uma transformação para atender as demandas criadas a partir da adoção da sua nova tática eleitoral. Antes de passarmos adiante é fundamental levantarmos algumas interrogações, tais como: Em quais áreas os “camisas-verdes” concentravam suas ações? Quais quadros da AIB se ocuparam dessas tarefas? E como eram feitas essas ações?

Quanto à primeira interrogação, pode-se dizer que as ações de assistência social dos integralistas abrangiam basicamente três áreas: a saúde, a educação e as obras de caridade. É necessário destacarmos que enquanto partido político de novo tipo a AIB agiu de forma extremamente afinada com as necessidades de sua época, ou seja, procurou intensificar sua atuação exatamente nas áreas de maior carência em relação às políticas sociais do poder público: a saúde e a educação.3

Tratava-se, nitidamente, de uma estratégia que atingiu várias metas ao mesmo tempo. Além de possibilitar uma ampliação dos contatos da AIB com a população, essa atuação também serviu como um fator de mobilização interna e atração de novos militantes. Isto é, para criar essa verdadeira “rede de solidariedade” foi preciso ampliar o número de filiados e militantes.

Dessa maneira, a própria divulgação das ações dos “camisas-verdes” nos meios de comunicação da organização teve a finalidade de demonstrar que a AIB era uma organização política diferenciada em relação aos “partidos de gabinete”, isso porque, independentemente do sexo, da idade ou da condição financeira todos que ingressavam nas “fileiras do sigma” passavam a ter tarefas.

Essa tônica na ação foi um dos pilares da organização, ou seja, diferentemente das outras agremiações partidárias, na AIB qualquer filiado ou principalmente, filiado poderia participar de quase todas as atividades. Isso posto, fica evidente que nas “fileiras do Sigma” os militantes não foram apenas meros espectadores\eleitores, pois existiria uma tarefa especifica para cada indivíduo que ingressasse no partido.

Dessa forma, o incentivo à militância ativa de seus membros foi outro dos traços marcantes da cultura política dos “camisas-verdes”. O cidadão que ingressasse no movimento integralista passava a ter sua agenda política repleta de atividades. Sobretudo, porque semanalmente aconteciam reuniões nas sedes, conferências, desfiles, churrascos e excursões que envolviam todos os militantes.

No caso dos trabalhos de assistência social o conjunto dos militantes era convocado para periodicamente comparecer nas atividades realizadas em asilos, orfanatos e hospitais.Com isso, o novo filiado passava a ser cotidianamente encorajado a militar, estudar, contribuir financeiramente e, principalmente, a filiar novas pessoas na AIB.

Nesse sentido, o incentivo da direção do partido em relação à militância constante era tão importante para coesão e unidade do movimento quanto à utilização dos uniformes, pois, mesmo o elemento recém filiado encontrava espaços e tarefas que, por um lado, ajudavam a capitalizar dividendos políticos para a agremiação e, ao mesmo tempo, também contribuíam para criar um sentimento de “pertencimento” do novo integralista.

Dessa forma, a organização ampliava cada vez mais seu quadro de adeptos. Na seguinte lógica, cada novo militante – ganho para a “causa” - tornava-se de imediato um recrutador de novos filiados. Esse verdadeiro “círculo virtuoso” foi potencializado pela divulgação das obras sociais da AIB, por meio da rede de informativos da “Sigma Jornais Reunidos”. Essa dinâmica funcionava como uma verdadeira corrente, ou seja, quanto mais obras e atividades sociais realizadas, maior era a divulgação nos órgãos de imprensa do partido.

Um exemplo desse processo, funcionando na prática, pode ser observado durante uma “farta distribuição de prendas”4 que ocorreu durante as comemorações natalinas de 1935, no núcleo municipal de Piraí. O chamado “Natal dos Pobres” era um evento que fazia parte do calendário nacional dos integralistas. Contudo, esses eventos - marcados pelas visitas de “senhoras e senhoritas integralistas” que generosamente faziam uma “distribuição de brindes aos pobres” - acabaram sendo apenas uma das inúmeras atividades sociais das militantes do partido.

Se, anteriormente, os trabalhos na área social da AIB concentravam suas energias na distribuição de brinquedos e balas no natal ou ainda na visita – mesmo que sistemática – a asilos de idosos, orfanatos, hospitais e asilos de tuberculosos, com a aproximação das eleições de 1936 houve uma significativa mudança no perfil das “obras sociais” dos integralistas. Assim, com a aproximação do pleito essa prática passou por transformações para adaptar-se à nova tática eleitoral dos “camisas-verdes”. Vejamos que mudanças foram essas.

Em maio de 1936 centenas de militantes do núcleo municipal de Itaperuna reuniram-se para celebrar uma tripla inauguração: uma escola (diurna e noturna), um consultório médico e um posto odontológico.5 Todos os dirigentes durante suas intervenções procuravam destacar as vantagens para a população da região, em especial, para os “militantes do Sigma” o fato da sede da AIB passar a abrigar postos de assistência médica e dentária. E mais, a sede também abrigaria em suas dependências mais duas escolas da AIB, para o início das atividades, já havia “matriculado 32 alunos”.

Se pensarmos unicamente na busca de votos e na atração de novos eleitores, meta central da AIB seria impossível comparar a distância entre os dividendos político-eleitorais alcançados com a instalação de serviços médicos, dentários e educacionais com as atividades desenvolvidas anteriormente – visitas a hospitais e distribuição de balas para as crianças – pelos integralistas.

Dessa forma, outra das peculiaridades apresentada pelos integralistas em relação aos demais partidos, foi a sua capacidade de unificar sua militância nas mais destacadas atividades, inclusive, no trabalho de assistência social. Como dissemos, essa atividade servia para mobilizar milhares de “camisas-verdes” que de maneira solidária contribuíam para amenizar a situação da população fluminense.

Por outro lado, os dirigentes da AIB souberam utilizar esse trabalho como propaganda política a favor do partido, sobretudo, durante as campanhas eleitorais. Nesse sentido foi instalado um total de 12 consultórios dentários, ambulatórios e postos médicos nos seguintes locais do estado: Joaquim Távora, Campos, São Sebastião do Alto, Itaocara, Miracema, Teresópolis, Ponte Nova, Tristão Câmara, Jaguará, São José do Rio Negro e dois postos em Petrópolis.

Podemos constatar que durante essa fase, apesar de não abandonarem as ações esporádicas e pontuais – como o “Natal dos Pobres” – os integralistas passaram a imprimir outra marca às suas atividades de cunho social, ou seja, elas passaram a ser permanentes e duradouras. Ademais, para atender às demandas da população, sobretudo do interior do estado, os integralistas montaram uma rede de assistência social, principalmente, nas áreas de saúde e educação.

Com a aproximação do período das disputas eleitorais esse mecanismo foi colocado à prova como um importante instrumento para garantir a adesão de novos filiados e, claro, os votos dos incontáveis cidadãos-eleitores assistidos pela “Cruz-verde”. Assim, os trabalhos de caráter social experimentaram uma fase de esforço concentrado em toda a “Província Integralista Fluminense” durante os períodos pré-eleitorais. Outra atividade que passou a ocupar cada vez mais atenção entre os integralistas foi a criação e manutenção de escolas de alfabetização.

Como veremos a seguir, todas essas atividades tiveram as chamadas “blusas-verdes” como principais responsáveis por sua manutenção. Dessa forma, para jogar algum peso de fato no mercado político foi necessário que os integralistas agissem de maneira pontual e planejada. Nesse sentido, o partido procurou atuar de forma pioneira em duas esferas: na atração da militância feminina a na alfabetização de adultos. Entretanto, antes de tratarmos das “escolas-verdes” se faz necessário destacarmos a importância das inúmeras militantes que compuseram os “quadros partidários” da AIB.


2 - AS BLUSAS-VERDES NA PROVÍNCIA FLUMINENSE

Nesse período outras atividades que passaram a ocupar cada vez mais espaços entre os integralistas foram as ligadas à criação e manutenção de creches, lactários e, principalmente, escolas de alfabetização. Igualmente, como no caso da assistência social, é preciso destacar que - mesmo antes de adotar a via eleitoral - a AIB já contava em sua estrutura organizacional com um Departamento Nacional Feminino.6

Contudo, é importante sublinhar que esse órgão servia para reproduzir, entre as “blusas-verdes”, o mesmo modelo da estrutura hierárquica da organização, ou seja, reproduzir a disciplina orgânica dos “camisas-verdes” entre suas militantes.
As divisões compunham o Departamento Feminino possuíam programas e atividades com ampla atuação, que iam de aulas de ginástica e a prática de esportes para o sexo feminino, como atividades de alfabetização, enfermagem, puericultura, datilografia, culinária, corte e costura, boas maneiras, contabilidade caseira e economia domestica. Cursos de especialização em Sociologia, Psicologia e Pedagogia poderiam ser oferecidos, além de um cronograma de conferências sobre economia social, geografia humana, literatura. Arte e formação moral e cívica.7
As funções que ficaram a cargo do Departamento Feminino foram estabelecidas nos protocolos, regimentos e estatutos dos “soldados de Deus”. Apesar de contar com um departamento específico, a autonomia das mulheres dentro do partido terminava nesse ponto.8 Dessa forma, a atuação das “blusas-verdes” no interior do movimento integralista deveria refletir o papel previsto pelos teóricos da AIB sobre o tipo de mulher ideal no “Estado Integral”: o de mãe e esposa, ou seja, o sustentáculo dos valores cristãos no interior das famílias brasileiras.

Assim, apesar de atuarem com destaque no trabalho de assistência social e educacional, a visão dos teóricos do integralismo era claramente preconceituosa em relação à capacidade das mulheres. O papel das militantes era visto como menor e inferior aos dos “camisas-verdes”, pois de certo modo, a divisão de funções da sociedade da época – homem provedor e a mulher um ser passivo – eram reproduzidas, defendidas e aceitas pelos principais dirigentes integralistas.

Portanto, existia uma verdadeira distinção de gêneros no interior da AIB, pois as mulheres ocuparam um papel meramente secundário em atividades teóricas, em desfiles, nas marchas, nas eleições e nos enfrentamentos de rua.9 Feitas essas ponderações, podemos voltar às articulações e preparativos para a participação dos integralistas fluminenses nas eleições de 1936. Sendo assim, outra singularidade foi a sua procura constante em diferenciar-se das outras agremiações partidárias. Como frisamos, exemplos dessa singularidade se expressaram através de uma estrutura que tinha como eixos: a propaganda política - “imprensa-verde” - e a assistência social - “cruz-verde”.

A partir da opção pela via eleitoral, foi preciso adequar toda essa estrutura organizacional aos novos objetivos do partido. Além dessas questões, gostaríamos de incluir mais uma: a incorporação de milhares de novas militantes nas “fileiras do Sigma” foi, indubitavelmente, um dos fatores fundamentais para o crescimento vertiginoso da AIB ao longo de seu período de existência legal (1932-1937).

Isso ocorreu porque – mais uma vez – os integralistas agiram de maneira eficaz e inteligente ao terem sido uma das primeiras organizações partidárias a criarem espaços específicos, mesmo que limitados, para a atuação das chamadas “blusas-verdes”. Nesse sentido, só foi possível ocorrer uma ampliação dos serviços de amparo social e educação porque o partido acolheu e confiou em milhares de militantes que ingressarem da AIB. Portanto, coube às “blusas-verdes” a grande responsabilidade de executarem, na prática, os mais variados projetos de assistência social e educacional dos integralistas.

Ademais, a presença das blusas-verdes no interior da AIB cumpriu na verdade um duplo papel: primeiro possibilitou a implementação dos projetos de assistência social dos integralistas e em segundo lugar aproximou milhares de mulheres da organização. Essa segunda informação assume uma importância estratégica quando constatamos que, a partir da criação do Código Eleitoral de 1932 e da aprovação da Constituição de 1934 , foi introduzida uma significativa inovação na legislação eleitoral brasileira: o voto feminino.

Dessa feita, a AIB passou a valorizar duplamente a presença em suas fileiras das “blusas-verdes”, pois agora as militantes, além de assumirem o papel de protagonistas na execução das tarefas na área social e educacional, também poderiam ser eleitoras dos “candidatos-verdes”. Indiscutivelmente a AIB – uma força política estruturada em nível nacional – ao oferecer espaços políticos que possibilitavam a militância de milhares de mulheres, acabou acumulando um capital político de valor inestimável, sobretudo, se pensarmos na disputa presidencial que se aproximava.

Como afirmamos, a presença de um notável contingente de mulheres\eleitoras representou mais um elemento diferencial entre a AIB e a maioria das outras agremiações políticas da época. Por seu turno, as “blusas-verdes” atuaram como verdadeiras multiplicadoras de votos, principalmente, nas tarefas educacionais, ou seja, nas escolas integralistas formando novos alfabetizados\eleitores.

Outro ponto a ser destacado em relação as militantes da AIB é que a criação de espaços específicos para as mulheres dentro da estrutura orgânica serviu como um incentivo para o recrutamento de novas militantes. Sem dúvida, nota-se que ao ingressarem numa organização como a AIB todos os recém-filiados passavam a desenvolver novas atividades de sociabilidade, tais como: usar uniformes, praticar atividades de educação física, participar de desfiles, estudarem em conjunto, etc.

No caso das “blusas-verdes” esse tipo de possibilidade representou algo inovador para os padrões de comportamento feminino da época que, como acabamos de verificar, até poucos anos antes impediam as mulheres de exercerem o mais elementar dos direitos do cidadão: votar nas eleições. Assim, outra vez, a AIB agiu com extrema habilidade ao procurar atrair para sua órbita os mais amplos contingentes da população que, naquele momento, buscavam espaços políticos para atuarem.

Sem dúvida, a militância das “blusas-verdes” abriu uma perspectiva pioneira para milhares de novas filiadas poderem atuar na prática em uma organização político-partidária. Nesse contexto, a missão prioritária das militantes do partido foi de se converterem em educadoras e, principalmente, alfabetizadoras. A seguir, cientes da importância das “escolas-verdes” para o projeto eleitoral da AIB, iremos apresentar como foi a atuação dos integralistas fluminenses nessa área.
3 - AS ESCOLAS INTEGRALISTAS NO RJ

Em abril de 1936, centenas de milicianos da 9ª Região da “Província Integralista Fluminense” realizaram uma grande concentração no núcleo distrital de Floresta, localidade próxima ao município de Natividade. O ponto alto desse evento foi marcado pela inauguração da escola de alfabetização, denominada Alberto Sechin, que teria como finalidade “alfabetizar e educar aqueles que são os verdadeiros sustentáculos da nacionalidade: os lavradores”.10

Dessa forma, a nova “escola-verde” deveria, pelo menos em tese, oferecer a oportunidade para que inúmeros moradores da zona rural da cidade pudessem receber, pela primeira vez, lições de leitura e escrita. Durante as intervenções dos dirigentes as justificativas apresentadas para a abertura da escola eram de que só através da instrução a população deixaria de ser “ludibriada” pelo “canto da sereia” dos “políticos da Liberal democracia”.11

Prosseguindo em sua “escalada educacional”, em junho de 1936, finalmente, um núcleo dos “Soldados de Deus” foi organizado em Angra dos Reis. O feito foi celebrado com uma grandiosa cerimônia que serviu para marcar a abertura da sede do movimento. Como em outras localidades do estado fluminense, também em Angra, na sede do partido foi instalada mais uma “escola-verde”.

Durante seu inflamado discurso, Antonio Valentim de Carvalho, militante escolhido para assumir a chefia do núcleo local, procurou sublinhar as dificuldades enfrentadas para que o movimento integralista se instalasse na cidade, pois antes teria sido preciso expulsar “os traidores demagogos a serviço do soldo de Moscou”.12 Na ocasião, os milicianos presentes também ouviram uma conferência de um dirigente regional da AIB.

Contudo, um dos destaques do evento daquela tarde foi a inauguração da escola integralista denominada Almirante Jaceguay, em uma evidente homenagem à Marinha do Brasil. Para marcar o fim da cerimônia os integralistas de Angra dos Reis cantaram o hino nacional. Esses casos relatados servem para exemplificar qual tarefa passou a ocupar a função prioritária no projeto educacional da AIB: a alfabetização da maior quantidade possível de cidadãos\eleitores.

Isso porque, sem dúvida, a abertura de postos de atendimento médico, consultórios dentários e, sobretudo, “escolas-verdes” voltadas para a “alfabetização intensiva da população”, como vimos nos casos citados a pouco – Itaperuna, Angra dos Reis e Natividade – são alguns exemplos de como concretamente os integralistas passaram a atuar em função da questão eleitoral, ou seja, a poucos meses do pleito eleitoral a AIB estava centrando todas as suas energias no sentido de aumentar seu volume de votos nas eleições municipais.

Como já registramos, a adoção da via eleitoral causou alguns efeitos nos métodos de atuação do partido. Os “camisas-verdes” já haviam intensificado suas atividades nas áreas de propaganda, assistência social, recrutamento de mulheres e também no campo educacional. Nesse sentido, igualmente como em outras partes do país, a partir de 1936,13 observou-se um crescimento nas atividades educacionais da AIB, principalmente, no que diz respeito a abertura de novas escolas de alfabetização de adultos no estado do Rio de Janeiro.

No que se refere à atuação na área educacional, como em outras atividades relatadas, é certo que os integralistas também já contavam com centenas de escolas espalhadas por todos os estados do Brasil. Prova disso que, no caso do estado fluminense, a primeira escola integralista foi inaugurada no dia 19 de novembro de 1933, na localidade de Fonseca, que fazia parte do núcleo municipal de Niterói.

Ainda na área educacional, os números apresentados pelo Relatório de Atividades da “Província Integralista Fluminense”,14 datado de abril de 1937, espelham a intensificação do trabalho educacional durante esse período. O objetivo desse documento foi apresentar um balanço das ações desenvolvidas pelos “camisas-verdes” em no estado do RJ durante 1936, chamado de “Ano-verde”. Os dados do relatório são referentes aos ambulatórios médicos, consultórios dentários, núcleos municipais e distritais além, é claro, das escolas sob responsabilidade da AIB.

Muito embora os integralistas mantivessem 124 estabelecimentos de ensino entre: escolas para crianças, cursos de corte e costura, cursos de bordado, escola de enfermagem, cursos de trabalhos manuais, música e artes aplicadas, fica evidente que a quantidade de escolas voltadas para a alfabetização de adultos se sobressaía, entre as demais. Cabe aqui uma indagação: por que tantas escolas de alfabetização?

A resposta dessa questão é simples, porque nunca é demais relembrar que entre as mudanças introduzidas na legislação – a partir do novo Código Eleitoral de 1932 e da Constituição Federal de 1934 – estava a proibição do direito de voto aos analfabetos. Em torno dessa lógica podemos refletir com mais clareza e assim compreendermos o objetivo por trás dessa “escalada educacional” dos integralistas.

Assim, paralelamente à criação de espaços específicos para as mulheres\eleitoras, o partido também procurou mobilizar toda sua estrutura para fundar centenas de escolas em nosso estado. Nesse sentido, o raciocínio era simples: cada cidadão alfabetizado numa “escola-verde”, teoricamente, se converteria em um voto a mais para os “Soldados de Deus”.

Longe de querermos realizar uma análise profunda do projeto pedagógico da AIB, pode-se dizer que na prática, sobretudo a partir de 1936, o objetivo central das “escolas-verdes” foi preparar todos os integralistas, inclusive os analfabetos, para estarem aptos para participarem das eleições. Para comprovar isso basta recordarmos as resoluções debatidas e aprovadas durante o Congresso da 7ª Região Fluminense.

Esse encontro realizado em março de 1936 na cidade de Campos dos Goytacazes contou com a presença de dezenas de chefes de núcleos municipais e distritais. Sua finalidade foi mobilizar o conjunto dos militantes para a tarefa prioritária para os integralistas no ano: a participação nas eleições municipais de julho. Como vimos, o documento produzido e aprovado ao final do congresso apontava as sete atividades que deveriam nortear a vida partidária até a disputa eleitoral.

São exatamente, o segundo e o terceiro ponto que gostaríamos de destacar: “2) Qualificação intensa dos companheiros não eleitores e 3) Capacitação do eleitorado simpatizante”. Essas duas resoluções servem para demonstrar o porquê da preocupação dos integralistas com a abertura de novas “escolas-verdes”. É importante insistir nessa questão, devido ao período pré-eleitoral termos como “capacitação” e “qualificação” de eleitores, nada mais eram que sinônimos para uma campanha urgente de alfabetização de militantes, principalmente, de adultos que tinha uma única finalidade: transformar em poucos meses analfabetos em eleitores da AIB.

É preciso deixar claro que de forma alguma pretendemos fazer um julgamento sobre os métodos empregados pelos integralistas – mesmo porque não é essa a finalidade desse trabalho. Contudo, precisamos fazer algumas ponderações sobre as práticas político-eleitorais da AIB durante o período pré-eleitoral.

Em primeiro lugar, às vésperas das eleições o partido realizou inaugurações de postos de atendimento médico e odontológico que funcionariam gratuitamente, como é importante frisar. Em segundo lugar, abriram inúmeras escolas de alfabetização que deveriam, prioritariamente, “capacitar” os eleitores analfabetos. Finalmente, em terceiro lugar, mesmo que demonstrando um imenso espírito solidário ao visitarem hospitais, asilos de idosos e orfanatos, utilizavam fartamente seus periódicos para realizarem a divulgação dessas ações sociais, ou seja, para os integralistas, tão importante quanto realizar atividades de assistência social era divulgá-las através da “imprensa-verde”.

Todos esses fatores somados – “imprensa-verde”, “blusas-verdes”, “cruz-verde” e “escolas-verdes” – indicam que, ao longo do ano de 1936, os integralistas preparam e “azeitaram” toda a máquina partidária na direção de um único alvo: as disputas eleitorais. Seus atos indicavam que a adoção da tática da via eleitoral foi rapidamente adaptada e incorporada no sentido de atingir as metas necessárias para consolidar o projeto de poder da AIB. Para muito além dessa primeira batalha o objetivo final era fincar as bases para o movimento que culminaria na manobra eleitoral mais ousada da história dos integralistas: a candidatura própria para presidente da República, nas eleições previstas para 1938.

REFERÊNCIAS:



CAVALARI, Rosa Mº F. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. (1932- 1937). Bauru, SP: EDUSC, 1999.
POSSAS, Lídia M. Vianna Possas. O Integralismo e a mulher. IN: Integralismo: novos estudos e reinterpretações. (ORG): DOTTA, Renato Alencar, POSSAS, Lídia M. Vianna e CAVALARI, Rosa M. F. Rio Claro: Arquivo do Município, 2004.


 Esse texto é parte da tese de doutorado intitulada “A Ofensiva verde: a Ação Integralista Brasileira no estado do Rio de Janeiro (1933-1937)” desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS-UFRJ) sob a orientação do Prof. Dr. Carlos Fico.

 Doutor em História Social (UFRJ). Professor da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. Vinculado ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu (mestrado) em História Social das Relações Políticas (PPGHIS - UFES).

1 Todas as informações sobre essa primeira conferência de Plínio Salgado em Niterói estão baseadas em matéria publicada em: Revista Sigma, nº 1, ano 1,pg. 25 e 26. Setembro de 1937. Acervo Plínio Salgado do Arquivo Público de Rio Claro – SP.


2Quanto falo em estado do Rio de Janeiro entenda-se todos os municípios fluminenses, exceto a cidade do Rio de Janeiro, na época Distrito Federal..

3 Não está entre os objetivos desse trabalho, analisar sistematicamente as políticas públicas para a área social.

4 A Offensiva, pg. 15, 15/03/1936.

5 A Offensiva, pg 1, 26\5\1936.

6 Mais informações sobre a participação das mulheres na AIB, ver: CAVALARI, Rosa Mº F. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. (1932- 1937). Bauru, SP: EDUSC, 1999. POSSAS, Lídia M. Vianna Possas. O Integralismo e a mulher. IN: Integralismo: novos estudos e reinterpretações. ORG: DOTTA, Renato Alencar, POSSAS, Lídia M. Vianna e CAVALARI, Rosa M. F. Rio Claro: Arquivo do Município, 2004.

7 POSSAS, Lídia M. Vianna Possas. O Integralismo e a mulher. IN: Integralismo: novos estudos e reinterpretações. ORG: DOTTA, Renato Alencar, POSSAS, Lídia M. Vianna e CAVALARI, Rosa M. F. Rio Claro: Arquivo do Município, 2004, p. 112

8 Idem. p. 112.

9 É importante registrar que segundo as autoras citadas o número de militantes do sexo feminino no interior da AIB teve seu crescimento mais notável nos períodos de alistamento eleitoral.

10A Offensiva, pg. 13, 12\4\1936.

11 Idem, idem.

12 A Offensiva, pg 1, 20\6\1936.

13 Essa questão pode ser verificada no seguinte trabalho: CAVALARI, Op. cit 2004, pg. 90.

14 Relatório de atividades da Província Integralista Fluminense, abril de 1937. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj). Fundo: Polícia Política. Setor\serie: Integralismo. Caixa: 676. Pasta: 18.




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