É muito diverso principiar uma reflexão sobre a questão ontológica hoje (e compreenda-se este hoje como algo referente aos últimos duzentos anos) do que tematizar esse problema anteriormente a estes mencionados duzentos anos



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<SUPERAÇÃO DO LIBERALISMO*
<JOSÉ ><CHASIN>**

*<Aulas ><ministradas ><><durante ><><o ><><curso ><><de ><><pós-graduação ><><em >< ><Filoso­><fia ><Política, ><><><promovido ><><pelo ><><Dep. ><de ><Filosofia ><><e >< ><História ><><><><><da ><Universidade ><><Federal ><><de ><><Alagoas, ><><><de ><25/01>< ><a ><06/02 ><de ><><1988.>



<A ><><transcrição ><><é ><><literal.>

**<Professor ><do >< ><Departamento >< ><de ><filosofia ><da ><UFMG.>



<ÍNDICE>

>

<<A ><ONTOLOGIA ><EM ><GERAL>

<Caracterização ><da ><questão >< >< ><01

>

<Passagem ><da ><intelecção ><mítica ><para ><a ><racional >< 06

><>

<A ><questão ><do ><uno ><e ><do ><múltiplo ><(1><ª>< ><abordagem) >< >< 08

><>

<A ><ontologia ><em ><Santo ><Tomas ><de ><Aquino >< 09

><>

<O ><nascimento ><da ><ciência ><e ><a ><situação ><da ><ontologia >< 10

><>

<A ><posição ><de ><Descartes >< ><11

>

<A ><posição ><de ><Kant >< 12

><>

<A ><solução ><ontológica ><hegeliana >< 13

><>

<A ><instauração ><ontológica ><de ><Marx >< 13

><>

<Negação ><do ><pensamento ><marxiano ><pelos ><próprios ><marxistas ><............................................................... 16

><>

<O ><domínio ><do ><critério ><gnosiológico >< 17

><>

<Reação ><ao ><critério ><gnosiológico ><através ><de ><Husserl. >< 18

><>

<A ><influencia ><husserliana ><em ><Merleau-Ponty, ><Sartre ><e ><Heidegger ><.......................................................... 18

><>

<A ><ontologia ><de ><Marx ><e ><Hartman >< 21

><>

<A ><questão ><do ><uno ><e ><do ><múltiplo ><(2><a><. ><abordagem) >< >< 21

><>

<A ><questão ><do ><uno ><e ><do ><múltiplo ><na ><tradição ><greco-medieval ><................................................................ 22

><>

<A ><unidade ><dada ><pelo ><sujeito ><e/ou ><pelo ><real >< 24

><>

<A ><questão ><do ><método ><analógico >< 24

><>

<O ><criticismo ><kantiano ><e ><seus ><problemas >< 24

><>

<A ><posição ><de ><Goethe ><frente ><ao ><criticismo >< 25

><>

<Retomada ><da ><questão ><da ><analogia ... 25

><><>

<O ><processo ><de ><abstração ><iniciado ><por ><Parmênides ><e ><sua ><ontolo><gia><><......................................................><. 26><>

<><><A ><questão ><do ><uno ><e ><do ><múltiplo ><(3ª ><abordagem).....................................................................................><>< 30

><>

<Sobre ><a ><consciência ><das ><categorias ><sociais >< 31

><>

<A ><concepção ><de ><ontologia ><em ><Platão >< ><32

>

<A ><concepção ><de ><ontologia ><em ><Aristóteles >< >< 34

><>

<Conclusão >< ><................... ><........................... 36

><>

<A ><QUESTÃO ><ONTOLÓ><GICA ><EM ><MARX>

<A ><problemática ><sobre ><as ><três ><fontes >< ><37

><>

<O ><período ><formativo ><da ><instauração ><ontológica ><><39

>

<Análise ><das ><Teses ><sobre ><Feuerbach >< ><47

><>

<Visão ><sintética ><do ><Marx ><da ><maturidade ><com ><atenção ><a ><questão ><do ><método........................................ ><><62>

<Esboços ><indicativos ><na ><direção ><de ><uma ><teoria ><da ><abstração ><........................................................ 75

><>>

<<Questões ><ligadas ><a ><ideação ><estética >< 81

><>

<A ><existência ><ou ><não ><de ><uma ><teoria ><política ><em ><Marx >< 84

><>

<A ><concepção ><negativa ><da ><política .................................................................................................><><><89

>

<COMENTÁRIOS ><BASEADOS ><NA ><BIBLIOGRAFIA ><ADOTADA

>

<Crítica ><da ><Filosofia ><do ><Direito ><de ><Hegel ><(introdução) ><- ><Marx ....................................................><. ><112

>

<A ><Burguesia ><e ><a ><Contra-Revolução ><- ><Marx 113

><>

<A ><Necessidade ><do ><Controle ><Social ><><Mészáros.............................................................................118><><>>

É muito diverso principiar uma reflexão sobre a questão ontológica hoje (e compreenda-se este hoje como algo referente aos últimos duzentos anos) do que tematizar esse problema anteriormente a estes mencionados duzentos anos. Quando até o século XVIII a questão ontológica era referida, o clima teórico que envolvia a questão era completamente distinto do clima teórico de duzentos anos para cá.

O problema ontológico é o mais antigo problema da reflexão filosófica que a história do pensamento registra. Não há problema mais antigo e não chega a ser um exagero dizer que aquilo que nós entendemos por filosofia, ou seja, aquela forma de pensar que tem origem entre os gregos, começou praticando ontologia sem que essa palavra então existisse e sem que os seus primeiros praticantes estivessem pensando em criar uma disciplina específica com um nome determinado.

O pensamento começou com a questão ontológica. Os pré-socráticos, aqueles que procuraram determinar o elemento primordial do universo, faziam uma reflexão ontológica na medida em que eles buscavam estabelecer qual a realidade efetiva do mundo, o que era esta realidade última do existente. No entanto, eles não denominaram essa busca nem de ontologia nem tinham por proposta criar uma disciplina específica nessa direção. A criação efetiva do ontologia virá um pouco à frente, trezentos anos depois, com as tematizações de Platão e, em especial, como disciplina estabelecida, com Aristóteles. Nem Platão nem Aristóteles, no entanto, intitularam esta reflexão de ontologia. O nome ontologia vai aparecer muitíssimo depois, será uma criação já na Alemanha a certa altura no século XVII. Em suma, levou dois mil anos para que este setor da reflexão ganhasse um nome, ainda que já havia ganho com Aristóteles uma descrição, um perfil, um lugar específico na imensa cadeia das ciências. Em Aristóteles, o nome que esta área da reflexão recebeu foi “filosofia primeira”, ou seja, aquela que dá o fundamento para todas as demais ciências. Então, a ontologia é entendida como a base pela qual se torna possível o congregado articulado da ciência no seu conjunto. Ciência no seu conjunto sem a ontologia não poderia ultrapassar o universo de opiniões particulares sob faixas particulares. No entanto, a simples forma pela qual eu exprimo hoje a questão já traduz, em grande medida, a tematização do problema no interior dos últimos duzentos anos.

Ao colocar a ontologia aristotélica como base, como fundamento, como aquilo que gera a possibilidade da ciência no seu conjunto, eu dou ênfase e privilégio à questão do conhecimento, do saber, ou seja, eu acabo por dar um clima de colocação que configura como primeira relevância a fundamentação do saber, ou seja, eu priorizo a questão cognitiva. A ontologia, imperceptivelmente na minha exposição, ganha uma dimensão gnosiológica quando o problema ontológico tem a sua importância fundamental enquanto fundamentação do saber, e não enquanto sustentação e afirmação do ser, do existente, do efetivamente reconhecido enquanto tal. Veja que eu estou nesta altura manobrando entre duas acepções, dois campos: o campo do saber e o campo daquilo sobre o qual o saber se faz, ou seja, do ser, daquilo que é. Eu quero frisar que o decisivo na ontologia é a questão daquilo que é e não a questão gnosiológica, ou seja, eu não estou negando que a ontologia é base das possibilidades do saber, mas já é uma distorção encarar a ontologia prioritariamente como uma base do conhecimento, porque o prioritário é a sua afirmação do ser. A ontologia é o reconhecimento dos entes, daquilo que está ali, daquilo que temos diante de nós. O critério gnosiológico refere-se ao saber e, enquanto tal, ele se refere ao campo da subjetividade, ao passo que a ontologia, enquanto universo do ser, se refere à objetividade. Quando eu apresento a ontologia como base do saber, eu priorizo o saber e o ser só aparece como alguma coisa que tem importância porque sustenta a subjetividade, ao passo que o critério ontológico sustenta a objetividade enquanto objetividade, sustenta a objetividade por ela própria. Que tal coisa na história do pensamento, mesmo no interior da ontologia não procedeu com esta clareza, mas, ao contrário, procedeu com inversões violentas é um outro problema.

Platão, como crítico de Parmênides e formulador da superação da concepção parmenidiana de ser, chega a formular que o verdadeiro ser é um paradigma racional. O ser é uma inteligibilidade que existe como prioridade fundamental face as existências empíricas imediatas que se pulverizam, que se apresentam em sua dimensão de multiverso. O mundo das idéias é o mundo ontológico em Platão. A verdadeira realidade é a idéia, só que a idéia não na subjetividade, mas fora da subjetividade. A idéia enquanto idéia na subjetividade para Platão, e por mais que importe frisar a importância de uma subjetividade esclarecida, cientificamente dotada, é uma pura reprodução e imitação da idéia que está num universo objetivo, fora da consciência das individualidades. O mesmo fenômeno (a racionalidade), com as variações específicas de um outro autor, Hegel, está num campo próprio, seu, que antecede o mundo da subjetividade racional. São soluções idealistas, mas isso não importa. Não é uma questão que se resolva simplesmente pela identificação: “são idealistas”. É preciso se acostumar a não se vergar excessivamente ao menos à dicotomia idealismo/materialismo. Sem dúvida é uma clivagem importante, mas ela não resolve todos os problemas da reflexão, da filosofia e da ciência. Há péssimos materialismos e há idealismos que é preciso atentar. Dito de forma mais específica: há coisas muito importantes que os idealistas dizem, independentemente do fato de que é uma forma mistificada de dizer, mas que apontam para questões importantes e há simplificações materialistas grosseiras que não têm valor nenhum. Mas, abandonando o lado baixo da questão, o fato que eu ressalto é que o Platão ao idear o universo da racionalidade, da inteligibilidade, não reduz a razão a uma construção elaborativa do sujeito, a idéia existe independentemente do sujeito, ele poderá se apropriar ou não dela.

Se o mundo empírico para Platão é uma derivação do mundo inteligível há interpretações em que uns dizem que sim e outros que não, mas provavelmente que não. Platão não está dizendo que o mundo empírico é uma conseqüência do mundo inteligível, como se o mundo inteligível fosse um útero gerador de empiricidades, a realidade empírica é decaída, é uma realidade em sua imperfeição. O que eu quero acima de tudo ressaltar é que este mundo das idéias no Platão não é aquele que habita a cabeça do filósofo, não é o mundo no interior da subjetividade do filósofo, não é a reflexão do filósofo, ainda que ele tenha por finalidade fundamental refletir sobre o mundo das idéias, isto é, trazer o mundo das idéias para si. Este mundo das idéias é algo objetivo, isto é, algo que não está no interior da subjetividade, pertence a uma exterioridade na subjetividade. Que objetividade é esta? É uma objetividade não concreta, mistificada, é uma invenção. Sem dúvida nenhuma, melhor que nós, Aristóteles deixou isso muito claro fazendo a crítica da teoria das idéias de Platão, dizendo que era simplesmente uma duplicação do mundo. Aristóteles, que viveu vinte anos em companhia do Platão, quando rompe com o platonismo, este rompimento é relativo, como quem pretende aperfeiçoar o platonismo, mas essas coisas são bastante complicadas.

O que eu estou ressaltando fundamentalmente aqui é apenas isto: Platão confere ao mundo das idealidades a verdadeira existência. Esta é uma perspectiva ontológica. Todo o meu esforço neste campo é tentar, na herança de duzentos anos, não falar da ontologia na perspectiva gnosiológica e aí a linguagem se torna mais difícil. Porque a perspectiva gnosiológica para falar de ontologia hoje gera distorções cabais. É como se a realidade passasse a ser só importante na medida em que ela é uma geradora de possibilidade da subjetividade. Eu nem estou dizendo que a realidade não é geradora de subjetividade, mas independentemente de gerar subjetividade tem a importância por ela própria. E no Platão a idéia não é um campo das possibilidades, é uma realidade. De sorte que o empiricamente realizado não é uma decorrência que efetivamente se deu de um rol maior. O mundo das idéias existe enquanto tal.

E se esta solução filosófica nos embaraça, é bom lembrar que embaraçou Platão a vida inteira. Ele se bateu com isto o tempo todo, ele tentou inclusive desembaraçar isto, mas acabava sempre reafirmando. Por quê? Porque há um “vício” no Platão. A ontologia, já no tempo dele, aparece amarrada demasiadamente à questão gnosiológica. O que eu vou querer chegar é o seguinte: o único pensador que realmente fez ontologia até as últimas conseqüências foi Marx. Por quê? Porque é o único a estabelecer o pensamento ontológico desembaraçado da questão gnosiológica, “recuperando” a disposição dos pré-socráticos, os únicos que também fizeram uma ontologia desembaraçada da questão gnosiológica. Talvez os epicuristas tenham sido, no mundo grego, os únicos também a se aproximarem de algo desse tipo, além de serem os materialistas conseqüentes do mundo grego. Esta é uma formulação do jovem Marx na tese de doutorado .



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