É bem possível que haja quem duvide da verdade que vai escrita nestas páginas



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"É bem possível que haja quem duvide da verdade que vai escrita nestas páginas. Dirão que é fantasia. Não os convidarei a crer. Não é assunto que se imponha à crença. Mas se saberem raciocinar, que o façam!

Eu os convido desejando, ardentemente, que não queiram conhecer essa realidade através dos canais do suicídio — canais cheios de trevas aos quais me expus eu mesmo..."

Camilo Castelo Branco
DEPOIS DO SUICÍDIO...
Adaptação resumida do livro:

"Memórias de um Suicida" (Yvonne A. Pereira)
Pela Profª Cleunice Orlandi de Lima

(Autora do "Método Professora de Papel- Histórias para Alfabetizar")
INTRODUÇÃO
Quem se atira no suicídio espera livrar-se de sofrimentos considerados insuportáveis...

Também eu pensei assim.

Enganei-me porém e sofrimentos milhões de vezes maiores me esperavam dentro do túmulo onde me escondi, pensando escapar às dores do corpo físico.

As primeiras horas depois do meu suicídio foram passadas como se estivesse dormindo. Meu espírito ficou como que desmaiado. Não ouvia, não sentia coisa alguma, a não ser a sensação da morte que acabara de buscar. Era como se aquele tiro maldito - que até hoje ainda ouço - tivesse esparramando cada uma das células que compunham meu corpo. A linguagem humana ainda não inventou palavras que possam contar as impressões que sente o suicida, logo depois do desastre que ele cometeu. Para entender tudo o que se passa, só outro espírito que houvesse cometido a mesma loucura!

Nessas primeiras horas - que se fossem só elas já seriam um inferno grande demais para qualquer um -, sente-se dolorosamente machucado, nulo, arrebentado em cada uma das moléculas. Perde-se no vácuo e, apesar disso sente-se medo, acovarda-se, sente-se a profundidade apavorante do erro cometido, na certeza de se haver ultrapassado os limites permitidos.

Pouco a pouco, fui me sentindo acordar. Sentia frio, muito frio. Tremia. Tinha a impressão que minhas roupas eram de gelo e estivessem grudadas na minha pele. Faltava-me o ar. Sentia um mau cheiro muito grande, tão grande, que me causava náuseas. Sentia uma dor muito aguda na cabeça, partindo do ouvido. Levei a mão ao ouvido direito e percebi o sangue escorrendo pelo buraco feito pela bala do revólver que usei para me matar. O sangue manchou-me as mãos, a roupa, o corpo. E eu nada enxergava. Devo esclarecer que o motivo que levou ao suicídio foi a revolta de haver ficado cego. Pensei que o sofrimento da cegueira fosse grande demais. Como eu estava enganado!

E, ao acordar na morte, sentia-me ainda cego! E além de cego, agora estava ferido. Mas eu acreditava estar apenas machucado, e não morto! Sim, a vida continuava em mim como antes do suicídio! Sentindo-me vivo, pensei que o ferimento que me fizera não havia sido suficiente para me matar. Imaginei estar deitado em algum leito de hospital ou em minha própria casa, mas nada conseguindo ver, era impossível reconhecer o lugar. As dores, a incerteza sobre onde estava e a solidão começaram a me angustiar. Chamei por meus familiares, por amigos, mas o silêncio continuava em torno de mim. Cheio de mau humor gritei por enfermeiros, por médicos que, certamente, estariam me assistindo. Bradei por qualquer pessoa que pudesse abrir as janelas daquele aposento abafado, escuro e fétido em que me achava. Eu precisava de ar puro, de cobertores quentes que afastassem de mim, aquele frio intenso. Queria que fizessem um curativo na ferida do ouvido; que me trouxessem alimento e água, pois tinha fome, sentia sede!

Mas o que ouvi horas depois, foi um vozerio que começou ao longe e foi se fazendo mais claro, mais próximo. Era um coro sinistro de vozes confusas e desnorteadas como uma asssembléia de loucos. Estas vozes não falavam entre si, não conversavam. Blasfemavam, queixavam-se, lamentavam, reclamavam, uivavam, gritavam, gemiam, choravam um pranto de horror, suplicavam socorro e piedade. Aterrado, sentia-me ligado não sei de que forma, àquelas pessoas que gritavam. Aquelas vozes infundiam-me tão grande pavor, que tentei me levantar, querendo me afastar para não ouvi-las. Mas não conseguia! Parecia-me possuir raízes que me prendiam no lugar. Não podia soltar-me! Aliás, mesmo que o pudesse como sair dali, se estava a esvair-me em sangue? Como andar se estava cego, em lugar que não sabia qual era? Cheio de covardia me pus a chorar e, quando chorava, aquele som de loucos parecia fazer estranho coro comigo, como se tivéssemos algo em comum.

Depois de grandes esforços, consegui me erguer. O corpo estava frio, os músculos retesados, sentia o corpo inteiro formigando.

Quando fiquei em pé, o cheiro repugnante de sangue e carnes podres fizeram-se tão fortes, que senti náuseas. O mau cheiro partia do lugar exato em que estivera deitado. Não entendia como poderia cheirar tão mal a cama em que achava. E o sangue continuava a correr manchando minhas roupas. Eu estava inteiro coberto por este sangue empastado que não parava de sair do ferimento que eu mesmo fizera. Com surpresa, percebi estar vestido com minhas melhores roupas como se fosse a uma festa, apesar de estar preso a um leito de sofrimento. E não entendia também como, de um machucado até pequeno, pudesse sair tanto sangue, nem porque não havia ali por perto alguém para fazer curativos e trocar os panos. Inquieto e vacilante dei alguns passos, vaguei pela escuridão, procurando porta de saída. Eu tropecei num monte de destroços e me abaixei, querendo examinar com as mãos, quais coisas eram aquelas que estavam à minha frente.

Então, ah, Deus! Descobri que o montão de destroços era nada menos que a terra de uma sepultura, recentemente fechada!

Não sei como, se estava cego, pude ver no meio da escuridão, o que existia em volta. Eu estava num cemitério!

A loucura se apoderou de mim. Comecei a gritar, a uivar como um demônio enfurecido - e agora era eu quem fazia coro àquelas vozes malditas que não se calavam e pareciam se aproximar mais. O que eu fazia num cemitério? Como havia ido parar ali assim ferido, sozinho, fraco e doente? Era verdade que eu tentara me matar, mas não havia conseguido. Eu dera o tiro, mas estava vivo... Eu quisera morrer, mas... E, devagar, a consciência me falou coisas que eu não queria nem pensar:

- "Não quiseste o suicídio? Pois aí o tens..."

Como assim? Como poderia ser? Eu não havia conseguido morrer. Acaso não estava ali, vivo e andando?

No entanto, nem havia acabado de fazer estas perguntas quando me vi a mim próprio! Vi-me como em frente a um espelho: morto, num caixão, já com as carnes apodrecendo no fundo de uma sepultura - justamente aquela sobre a qual, acabava de tropeçar!

Fugi dali, desejando me esconder de mim mesmo, cheio de horror!

E, como louco que agora estava, corria, corria, tendo sempre à minha frente o meu corpo apodrecendo no túmulo, coberto por lesmas nojentas e famintas que brigavam entre si, para devorar aquele corpo que era eu mesmo! Ah, que vontade de morrer! Que vontade de morrer de verdade, pois mesmo querendo me matar, continuava vivo igual antes, ou mais ainda! Na fuga desesperada consegui chegar à cidade; fui entrando em todas as portas que encontrava abertas, a fim de me esconder. Vagava pelas ruas tropeçando, caindo, me escorando nas paredes, sofrendo sozinho ali, naquela mesma cidade onde sempre fui respeitado, onde meu nome era endeusado como um gênio.

Consegui chegar à minha casa e ali, percebi grande desordem. Meus objetos de uso pessoal, meus livros, manuscritos, apontamentos, nada encontrei nos lugares de costume. Senti-me estranho dentro da minha casa! Nem amigos, nem parentes me dedicavam ao menos uma palavra de conforto. Dirigi-me a consultórios médicos, tentei ser recolhido a um hospital pois sentia febre, dor e amargura. Em vão me apresentava; ninguém ligava importância quando eu dizia o meu nome, quando eu dizia quem era, o que havia feito, meus títulos, minhas qualidades pessoais - orgulho tolo, pois ninguém me olhava sequer! Aflito e sentindo muitas dores, não encontrava alívio em parte alguma. E o meu corpo morto me atraía para otúmulo onde se encontrava, como se poderoso ímã ali me chamasse com força. Era tão grande a atração exercida pelo meu próprio cadáver e, não encontrando lugar algum onde pudesse ao descansar, voltei ao local de onde viera: o cemitério. Debrucei-me soluçando sobre a sepultura que aguardava meus miseráveis restos, sentindo uma fúria diabólica, compreendendo que me suicidara, que estava sepultado mas que, apesar disso, continuava vivo e sofrendo mais, muito mais que antes.

Durante alguns meses vaguei sem rumo. Ligado à carne que apodrecia, não podia me ausentar dali. Apesar da minha cegueira, vi fantasmas perambulando pelo cemitério e, iguais a mim estavam chorosos e aflitos. Numa das vezes em que ia e vinha tropeçando pelas ruas, ao dobrar uma esquina deparei com certa multidão: uma porção de individualidades, entre homens e mulheres. Era noite, ou pelo menos eu achava que era, pois estava sempre envolvido pela escuridão da cegueira. Essa multidão era a mesma que vinha me aterrando com seus lamentos, desde que acordei na morte. Tentei recuar, fugir, ocultar-me porém, logo me vi envolvido por aquelas pessoas que uivavam em desespero. Fui levado de roldão, empurrado, arrastado e era tal a aglomeração, que me perdi dentro dela.

Aquele bando de dementes era conduzido por soldados que agora, conduziam a mim também. A cada momento juntava-se àquela multidão outro vagabundo como acontecera comigo que, mesmo querendo, não poderia mais se afastar da turba barulhenta. Pensei que estivéssemos sendo conduzidos à prisão. Protestei. Em altas vozes bradei que não era criminoso; dizia meu nome, enumerava meus títulos e qualidades mas os guardas, se me ouviam, nem tinham o trabalho de responder.

A caminhada foi longa. O frio era cortante e enregelava a todos. Misturei minhas lágrimas e meus lamentos ao coro de vozes horripilantes participando, eu também, da triste sinfonia de dor. Finalmente, começamos a caminhar por um vale profundo. Caminhamos muito, muito. Cavernas surgiram de um lado e de outro, numa espécie de ruas que nada mais eram que estreitas gargantas entre montanhas sombrias. Não se via terra no chão; tudo eram pedras, lamaçais, pântanos, sombras. Entrávamos cada vez mais naquele abismo. No centro de uma grande praça, os soldados fizeram alto e, com eles, estacou toda a multidão. Fizemos silêncio até percebermos que a soldadesca se retirava. Eles se afastavam, abandonando-nos ali. Sem sabermos o que significava aquilo corremos atrás deles, procurando no retirar também. Mas em vão! Os pântanos, as cavernas, as ruelas eram tantas, que nos perdíamos num labirinto pois, para quaisquer lado onde olhássemos, para onde nos dirigíssimos, o cenário era sempre o mesmo. Estranho terror se apossou de todos nós.
Os Condenados
Meus companheiros eram horrendos. Feios, magros, desalinhados, irreconhecíveis até pelos que os amaram na Terra. Era uma assembléia numerosa de criaturas disformes; homens e mulheres, cujo traço comum era a alucinação. Todos trajavam roupas empastadas do lodo das sepulturas trazendo a fisionomia alterada pelo sofrimento. Imaginai uma localidade, uma povoação envolvida eternamente por densa penumbra gelada, onde se aglomerassem tétricos fantasmas suicidas erguidos do túmulo! Pois era assim a multidão de criaturas que eu tinha por companheiros e, também eu, já esquecido do orgulho, pertencia a tão repugnante massa; também eu era um feio, um alucinado, um pastoso como os demais!

Eu via - não sei por qual meio, pois ainda estava cego. Mais do que ver através dos olhos, eu via através da alma e este era mais um castigo que me era imposto, pois se não visse absolutamente nada, meus sofrimentos teriam sido menores, por não saber o que se passava ao lado. Eu via aqui e ali, de quando em quando, meus companheiros repetindo seu gesto suicida! As ânsias do enforcamento, os gestos desesperados por livrar o pescoço endurecido e arroxeado dos farrapos de cordas ou tiras de panos! Via outros como loucos em correrias espantosas bradando por socorro em gritos alucinados, julgando-se, de momento a momento, envolvidos nas chamas que lhes devorava o corpo físico e que desde então, ardia sem tréguas. Estes que se mataram através do fogo eram, geralmente, mulheres.

Eis que viam outros ainda, com o peito ou o ouvido ou a garganta banhados em sangue. Oh! Sangue inalterável, permanente, que nada conseguia estancar! Havia aqueles outros sufocando-se na bárbara asfixia do afogamento tentando nadar, à procura de socorro. Estes se mostravam aos demais como na hora extrema do suicídio: ingerindo água aos gorgolejos, prolongando indefinidamente as cenas da agonia! E havia ainda mais!

O leitor me perdoe estes detalhes desinteressantes ao seu bom gosto literário, mas úteis, servindo de advertência aos de caráter impulsivo, condenados a viver neste século em que o suicídio se tornou uma quase epidemia. Não pretendo aliás, apresentar obra literária para deleitar temperamentos artísticos. Cumpro o dever sagrado de falar tão somente aos que sofrem e pensam, quem sabe, em procurar o descanso pelo suicídio. Cumpro o dever de falar a verdade sobre o abismo que espera cada um dos ingênuos que procuram se desviar dos sofrimentos terrestres pela porta da morte espontânea.

E como eu dizia, havia mais ainda. Destacavam-se pela fealdade impressionante os que haviam procurado o olvido eterno sob as rodas de um trem. Estes eram desfigurados, roupas em farrapos, cobertos por chagas sanguinolentas, carnes retalhadas, confusas, num emaranhado de golpe sobre golpe, como se tivessem sido fotogrtafados naquele momento exato em que as rodas de ferro lhes moessem as carnes, os ossos, as vísceras...

E, coisa incrível! Cada um de nós do Vale dos Suicidas, recordando - sem poder esquecer - as cenas violentas do momento em que nos suicidáramos, criávamos os cenários e as cenas vividas em nossos últimos momentos na Terra. Estas cenas criadas por cada um ao redor de si eram vistas por todos os outros, espalhando maior tragédia por toda parte. Assim víamos aqui e ali, suicidas balançando em suas cordas; víamos no outro lado trens rápidos e barulhentos colhendo o infeliz que se atirava sob suas rodas - as carnes sendo rasgadas e trituradas; os gritos tresloucados de dor, espanto e arrependimento tardio. Com a mente sempre voltada ao momento sinistro, cada um de nós oferecia aos olhos dos demais, outras cenas: daquele que, relembrando o suicídio por afogamento, mostrava-se a procura de ar, numa massa imensa de água! Homens e mulheres correndo desesperados - uns ensaguentados, outros torcendo-se no meio das dores da morte por envenenamento, deixando à mostra as carnes corroídas pela droga ingerida. Outros mais a gritarem por socorro em correrias desabaladas, traziam o pânico ainda maior que os demais - eram os incendiados que, como eterna bola de fogo, passavam espalhando chamas e fumaça, fazendo os companheiros recuarem com medo que pudessem queimar-se ao seu contato. Era a loucura coletiva! E, para coroar todos os sofrimentos, havia as penas morais. Ah, estas! Os remorsos, a saudade dos seres amados, a vergonha!


O Vale dos Suicidas
E ali me vi aprisionado em região do Mundo Invisível, de panorama desolador composto por sombras e vales profundos, gargantas tortuosas e cavernas sinistras. Dentro destas cavernas, os espíritos que foram homens uivavam qual malta de demônios enfurecidos, como dementes, devido ao grande sofrimento que os martirizava. Neste local de aflições não havia um único arvoredo, nem bela paisagem que pudesse distrair a vista torturada. A visão era cansativa pelas gargantas onde só existia o supremo Horror! O chão coberto por matéria negra e mal cheirosa parecendo fuligem era imundo, pastoso, escorregadio. O ar pesado era asfixiante, gelado, escurecido por nevoeiro espesso e ameaçador, como se tempestades eternas rugissem em torno. Os espíritos ali aprisionados sufocavam ao respirar, como se aquele ar cheio de matérias nocivas iguais a cinza lhes invadissem as vias respiratórias. Era um martírio, um suplício que o cérebro humano, habituado às claridades do sol, jamais pode entender.

Nunca o ar fresco da madrugada! Nem uma faixa azul do céu para ser contemplada! Nem a claridade do sol! Nem bandos de andorinhas, nem cintilações das estrelas! Nunca, a primavera! Não havia ali nem haverá jamais nem paz, nem consolo, nem esperança; tudo é marcado pela desgraça, miséria, assombro, desespero, horror! A dor que nada consola, a desgraça que nada ameniza, a tragédia sem tranquilidade sem poder dormir, sem sonho, sem esperança! Não há céu, não há luz, não há sol, não há perfume, não há tréguas! O que há é o choro convulsivo e insconsolável dos condenados! O que há é o assombroso "ranger de dentes", daquela sábia advertência de Jesus! Oque há é a blasfêmia do miserável a se acusar a cada uma das dolorosas recordações. Há a loucura das consciências chicoteadas pelo remorso! O que há é a raiva envenenada daquele que já não pode chorar, cansado do excesso de lágrimas! O que há é o desapontamento, a surpresa aterradora de quem se sente vivo apesar de haver se atirado na morte! É a revolta, a praga, o insulto, os corações que o monstruoso castigo transformou em feras! O que há é a alma ofendida, tudo envolvido em trevas! É o inferno na mais horrenda exposição porque, além de tudo, existem cenas de animalidade, prática dos mais sórdidos instintos as quais, me envovergonharia de contar aos meus irmãos, os homens!

Quem estaciona ali como eu estacionei, são grandes personalidades do crime. É a escória do mundo espiritual; apenas grupos de suicidas que chegam todos os dias. São almas que vêm quase sempre da Espanha, Brasil, Portugal e colônias portuguesas da África, infelizes necessitados do auxílio da prece. São os levianos irresponsáveis que, fartos da vida, se aventuram ao Desconhecido à procura de "esquecimento e alívio", através do suicídio!

Não sei como são os trabalhos de correção para suicidas nos outros núcleos destinados ao mesmo fim. Sei apenas que fiz parte da sinistra falange aprisionada nesse local pavoroso, cuja lembrança, até hoje, me faz sentir repugnância.

É bem possível que haja quem duvide da verdade que vai escrita nestas páginas. Dirão que é fantasia. Não os convidarei a crer. Não é assunto que se imponha à crença. Mas se sabem raciocinar, que o façam! Eu os convido desejando, ardentemente, que não queiram conhecer essa realidade através dos canais do suicídio, canais cheios de trevas aos quais me expus, eu mesmo.
Era eu, pois, presidiário dessa cova detestável do Horror! Ainda me sentia cego. Pelo menos achava que estava cego mas, na verdade, minha cegueira era a inferioridade moral do Espírito distanciado da Luz. No entanto, apesar de cego, conseguia perceber o que apresentasse de mau, feio, sinistro, imoral e obsceno pois, meus olhos conservavam visão suficiente para contemplar toda essa escória. Eu, tendo bastante sensibilidade, sentia-me muito pior, porque experimentava também os sofrimentos dos outros companheiros de aflições, desde que tudo o que um sentisse, se esparramava em cima dos outros.

Às vezes, aconteciam brigas brutais naqueles becos cheios de lama apodrecida onde se enfileiravam as cavernas que usávamos como moradia. Sempre irritados por quaisquer motivos, nos atirávamos uns contra os outros em lutas violentas. Muitas vezes ridicularizado e humilhado, eu me atirava como um selvagem contra os agressores e com eles, rolava na lama que nos servia de ceva espiritual. A fome, a sede, o frio, a fadiga, a insônia nos martirizavam, como se ainda estivéssemos em nosso corpo de carne. A promiscuidade vergonhosa dos espíritos que foram homens e dos que foram mulheres; as tempestades constantes e inundações, a lama, o mau cheiro, as sombras eternas, a ansiedade de nos vermos livres de tantos martírios, assim era o panorama que acompanhava os nossos mais dolorosos padecimentos morais. Não se podia ao menos sonhar com coisas bonitas, nem pensar coisas diferentes; nem mesmo recordar o passado era permitido aos que gostariam de o fazer. Naquele ambiente superlotado de males, o pensamento estava prisioneiro em tornos de nós, só emitindo e recebendo vibrações tão negativas quanto o local onde nos encontrávamos. Envolvidos em tão enlouquecedora situação moral e espiritual, não havia quem pudesse atingir um único instante de serenidade para se lembrar de Deus e chamar por Sua Misericórdia! Não se podia orar, porque a oração é um bem, um descanso, uma esperança - e aos desgraçados suicidas, seria impossível atingir tão grande benefício: o benefício da prece!

Não sabíamos quando era dia ou noite, porque as sombras eternas rodeavam as horas em que vivíamos. Perdemos a noção do tempo. Sentíamos apenas uma triste sensação de distância do nosso passado, como se há séculos ali nos encontrávamos. Dali não esperávamos sair, apesar de este ser o nosso único desejo. O mesmo desânimo que armou nossa mão para o gesto suicida nos dava a certeza de que ali estávamos para toda a Eternidade! O tempo estacionou no momento exato em que fizéramos tombar o nosso corpo para a morte. Daí para cá só existiam assombro, confusão, pensamentos tristes e enganadores.

Também ignorávamos em que local nos encontrávamos. Às vezes, tentávamos escapar dali; procurávamos aflitos, fugir daquele lugar maldito e saíamos a correr como loucos furiosos! Dementes malditos sem consolo, sem paz, sem descanso em parte alguma, em correria sem saber para onde, para depois sermos atraídos de volta ao mesmo lugar como se estivéssemos ligados a ímãs gigantes que nos levavam sempre ao ponto de partida, naquela confusão de nuvens sufocantes. Outras vezes, vagarosamente entre as sombras, lá íamos por entre vielas e becos, sem descobrirmos sinais de saída. Cavernas, sempre cavernas em trechos encharcados, lagos cheios de lodo tendo em volta altas muralhas que mais pareciam erguidas em pedra e ferro, como se estivéssemos sepultados vivos nas profundezas de um vulcão! Era um labirinto onde nos perdíamos, sem jamais alcançar o fim! Nossa impressão era que estivéssemos prisioneiros no subsolo, em cárcere cavado embaixo da terra ou dentro de uma cordilheira cheio de vulcões extintos; se não fosse assim, de onde viriam aqueles poços de lama e lodo, com paredes tão altas? Aterrados, nos púnhamos a gritar furiosamente, como malta de lobos danados; pedíamos que nos retirassem dali, devolvendo-nos a liberdade! Depois, aconteciam as mais violentas manifestações de terror; tudo quanto o leitor possa imaginar de confusão, cenas tristes, aterradoras e horrorosas, ficaria muito longe daquela verdade por nós vivida nessas horas criadas pelo nosso próprio pensamento distanciado da Luz e do Amor de Deus.

Como se enormes espelhos nos perseguissem, dentro de nós víamos sempre aquela cena macabra: o nosso próprio corpo na sepultura a se decompor sob o ataque dos vermes esfomeados; o trabalho detestável da podridão a seguir seu curso natural de destruição levando junto nossas carnes, nossas vísceras, nosso sangue malcheiroso, nosso corpo inteiro sendo consumido num banquete de milhões de vermes famintos. Nosso corpo era carcomido devagar sob nossos olhares esbugalhados pelo terror! O físico, a nossa parte material morria enquanto nós, seus donos, continuávamos vivos, sofrendo, sem podermos morrer também!

Ó, castigo punindo o desgraçado que decidiu insultar a Deus destruindo antes da hora, o que só a Ele cabe decidir e realizar! Nós estávamos vivos ainda, diante do corpo apodrecido! E doíam em nós as picadas monstruosas dos vermes! Ficávamos enfurecidos, enlouquecidos sentindo em nós mesmos, o que se passava em nosso corpo já morto no túmulo!

E os nossos gritos infernais se reproduziam em ecos ao longo de todo o vale o tempo todo, o tempo todo...

Pensávamos estar diante do Tribunal do Inferno! Sim, aqueles mesmos obsessores que alimentaram em nós as sugestões para o suicídio divertiam-se com nossas angústias fazendo-nos acreditar que eles eram os juízes que iam nos julgar e castigar. Apresentavam-se como seres fantásticos, fantasmas impressionantes. Inventavam cenas satâncias, com as quais nos castigavam. Submetiam-nos a vexames difíceis de descrever. Obrigavam-nos a torpezas e deboches, fazendo-nos cúmplices de suas infames obscenidades! Donzelas que praticaram o suicídio por motivos de amor, esquecidas de que o amor é paciente e obediente a Deus; esquecendo o amor de uma mãe que ficara inconsolável; desrespeitando os cabelos brancos de um pai, estas donzelas eram agora insultadas no coração e no pudor por estas entidades animalizadas que as faziam crer serem obrigadas a se escravizar e a servi-los sob todas as formas por serem eles, os donos do Império das Trevas que elas escolheram por moradia quando abandonaram o lar através do suicídio!

Estes seres satânicos não passavam de Espíritos que foram homens também, mas que viveram no crime: sensuais, hipócritas, perjuros, traidores, sedutores, assassinos, perversos, caluniadores, sátiros e que muitas vezes, na Terra, tiveram funerais pomposos, mas que na vida espiritual se resumem na corja repugnante que mencionei.

Além destas cenas, acontecia-nos que os atos errados que fizemos durante a vida na Terra - nossos crimes, nossas quedas - eram colocados à nossa frente; visão acusadora na condenação pelo que fizemos de incorreto. As vítimas que fizemos enquanto estivéramos vivos repareciam agora, em lembranças vergonhosas nos desequilibrando pelo remorso!

Enfim, cada um de nós era um morto vivo, em toda a extensão da palavra. E este estado de coisas só poderia ser atenuado quando se acabassem as forças vitais de éramos portadores.

Os suicidas se demoram no sofrimento o tempo que lhes resta para o final de seu compromisso na Terra: dias, meses, anos...


O Socorro
Vez ou outra, uma caravana desconhecida visitava nosso buraco de sombras. Era como uma inspeção de alguma associação caridosa. Vinha à procura daqueles que, entre nós, já havia cumprido, no Vale dos Suicidas, o tempo que deveria ser cumprido na Terra. Aqueles que já estavam com seus fluidos vitais enfraquecidos pela desintegração total do corpo físico. Estes eram removidos para outras regiões intermediárias do Invisível.

A caravana era composta por Espíritos Superiores. Trajados de branco, caminhavam pelas ruas lamacentas do Vale. Um deles levava à mão direita uma bandeira brilhante, onde estava escrito: LEGIÃO DOS SERVOS DE MARIA. Tais servos eram chefiados por um espírito de aparência respeitável vestido de branco e tendo na cabeça um turbante hindu, preso à frente por uma esmeralda, símbolo dos médicos. Eles entravam nas cavernas habitadas e examinavam seus moradores. Curvavam-se cheios de piedade junto à lama, levantando alguns dos desgraçados tombados. Os que se apresentavam em condições de serem socorridos eram colocados em macas e levados dali. Uma voz que não sabíamos de onde vinha guiava os espíritos socorristas para este ou aquele lugar, onde havia um de nós em condições de ser socorrido. As macas eram levadas para dentro de veículos que acompanhavam a expedição. Estes veículos se pareciam a pequenas diligências brancas puxadas por cavalos também brancos, tão belos, que despertariam nossa atenção caso estivéssemos em condições de notar alguma coisa além de nossas desgraças.

Depois de busca cuidadosa por todo o Vale, os estranhos visitantes se retiravam, enquanto gritávamos por socorro nos sentindo desprezados, sem entender o motivo pelo qual deveríamos permanecer naquele sofrimento. Suplicávamos justiça e compaixão; ficávamos revoltados, exigindo que nos deixassem seguir com os demais. Os caravaneiros não respondiam, nem faziam qualquer gesto para nos atender e, então, o coro hediondo de uivos, os gritos vibravam dolorosamente pelas ruas lamacentas parecendo que a loucura coletiva havia atacado os presos miseráveis!

E assim ficávamos... por quanto tempo? Oh, Deus Piedoso! Por quanto tempo ainda?


Num dia, senti-me tão profundamente cansado pelas torturas, tão fraco, como que desmaiado. Eu e muitos outros estávamos em situação idêntica, incapazes de resistir por mais tempo. Necessitávamos descansar e esta urgência nos obrigou a ficar amontoados nas cavernas úmidas e escuras. Ali nos achávamos quando o rumor daquelas carruagens de socorro nos chegou até os ouvidos.

Apesar do cansaço que nos invadia, saímos para a rua. As vielas e praças já estavam superlotadas pelos condenados que, como das outras vezes que éramos visitados por aquela caravana, punham-se a bradar mais alto procurando despertar a atenção dos socorristas. A caravana estacionou na praça imunda. Desceu o pelotão com enfermeiros e o chefe, sempre de avental branco, turbante com esmeralda e distintivo de médico. Começaram o reconhecimento dos que seriam levados. No ar, aquela voz que não se sabia de onde vinha, chamando os suicidas pelo nome, ou indicando onde se encontravam os que já haviam cumprido seu tão tenebroso castigo.

De súbito, ouvi meu nome! Eu seria libertado! Entre lágrimas, subi os degraus do veículo indicado. Entrei na carruagem confortável, onde se lia mesmo lema que se via na bandeira: LEGIÃO DOS SERVOS DE MARIA. Depois, o estranho comboio se pôs a caminhar e me pus a chorar, ouvindo o coro de blasfêmias, a gritaria desesperada dos infelizes que ficavam. A cerração cinzenta que contemplei durante anos foi ficando para trás.

Deus misericordioso! Eu estava saindo, finalmente, do Vale dos Suicidas!


Os sofrimentos do romancista português Camilo Castelo Branco não terminam aí. Nem seu relato de 568 páginas em letras miúdas. Este livreto que está em suas mãos é um resumo das primeiras 56 páginas do mesmo livro. Este é um apanhado muito resumido, somente o começo de tudo. Aqui, as setenças estão na ordem direta, fatos na ordem cronológica, palavras de fácil entendimento. É apenas uma adaptação resunida dos fatos principais. O relato completo sem cortes, com palavras do próprio suicida Camilo estão no livro "Memórias de Um suicida", psicografado por Yvone A. Pereira.

CAMILO FERREIRA BOTELHO CASTELO BRANCO, o Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa aos 16 de março de 1825 e matou-se em São Miguel de Seide, com 65 anos de idade. Obsediado, pessimista, dono de grande inteligência e cultura, um dos maiores escritores portugueses, foi acometido por uma doença nos olhos que, aos poucos, o levou a cegueira completa. Consultou vários médicos e, no dia 1º de junho, de 1890 foi consultado, em sua própria residência, por renomado especialista. Sem poder arrancar do médico a verdade sobre a doença, Camilo ficou à escuta enquanto o oculista dava sua opinião à esposa dele, Ana Plácido. Foi então que o escritor ficou sabendo que sua cegueira era um caso perdido. Voltou ao quarto e deu um tiro no ouvido.

A idéia de suicídio perseguia Camilo fazia muito tempo e, prova disso, é a carta que deixou datada de três anos antes! Eis alguns trechos de sua extensa carta de adeus:


"26 de novembro de 1886

Meus padecimentos estão se complicando e levando-me ao suicídio. Esta vontade de me matar vem de longe. E creio que, no momento supremo, não terei a firmeza suficiente para escrever estas linhas. Escrevo-as hoje, antecipando-me à hora final.

Minha vida foi muito infeliz e quem me conhece, não deve chorar minha morte.

Quando se ler este papel, já estarei gozando as primeiras horas de repouso.

Não deixo nada. Deixo um exemplo. Seja bom e virtuoso, quem o puder ser.

Camilo Castelo Branco."
Mas, longe de encontrar o repouso que a si mesmo prometera, o pobre escritor encontrou remorsos, sofrimentos, dores, visões aterradoras, num cenário infernal, sem o mínimo descanso. Mais de vinte anos depois da morte, depois de sofrer no horripilante local onde padeceu as mais negras misérias, passou a mandar mensagens psicografadas para a Terra. Eis um trecho de uma de suas cartas:
"Peço aos que me lerem que acreditem no que digo, sem experimentar. O desastre será irremediável se fizerem o mesmo que fiz. Aceitem a vida tal como ela é. Aceitem as dores, a cegueira, as deformações, os aleijumes, o desespero, a desgraça, a fome, a desonra, a lama. Tudo, tudo de mau, de injusto que a Terra possa dar são coisas excelentes em comparação ao que terão, no caminho do suicídio."

Outros trechos sobre suicídio

do livro: "O Martírio dos Suicidas", de Almerindo Martins de Castro.
"Eu, que me matei porque não podia viver sem ele, tenho de viver sem ele, porque me matei!" (Júlio César Machado)
"Sejam fortes, vocês que estão lendo estas páginas! Quando forem vítimas do sofrimento, procurem afugentar a idéia de suicídio porque, se nele caírem, aí sim será aberto diante de seus pés, o mais tenebroso inferno!" (Dr. Raul Martins)
"Eu fui um destes. Cada nova desilusão me fazia alimentar com maior carinho, a idéia do suicídio. Por fim, já nem precisava de novos motivos. Eu mesmo os inventava, naquela vontade de me torturar. E escondia de todos o meu desjo louco de morrer, com receio que convencessem do contrário. Cedi a esta covardia e suporto agora, as consequências...

Ah, se soubessem os que me lêem, o preço que se paga por esta covardia, ninguém se suicidaria. Os maiores martírios da Terra são doces consolações quando comparados aos mais suaves sofrimentos de um suicida!" (Antero de Quental)
"Não sei de sofrimento que seja comparável ao que se vive no Vale dos Suicidas. Lá ruge-se, geme-se, chora-se, soluça-se, ulula-se, pragueja-se, maldiz-se. Não existe paz — só trevas. E que trevas, meu Deus! Que trevas!" (Camilo Castelo Branco)
Eu não acreditava que a alma continuasse viva depois que o corpo estivesse morto. Grande engano! (Mousinho de Albuquerque)
A morte em si, natural ou por acidente, quando chega no prazo fixado por DEUS nada tem de aterrador, se a pessoa cumpriu a sua missão na Terra. Não acontece o mesmo com os que se matam - não importa quem hajam sido na Terra, não importam diplomas, títulos, religião a que tenham pertencido. O suicídio é sempre cobrado de maneira muito amarga. Nunca se ouviu falar de um suicida que tenha "virado santo", ou que haja "ganhado o céu". As notícias que nos chegam dos que se matam é sempre um rosário de dores, lamentações e remorsos. Vejamos alguns resumos simplifcados e adaptados de depoimentos:
Dr. Raul Martins - juiz íntegro, inteligente, católico fervoroso. Suicídio em 21 de novembro de 1920.

Trinta e três meses após, ele próprio conta suas experiências. Vejamos alguns trechos:


"O candidato a suicídio se ilude, supondo que vai se libertar das dores, das tristezas, das misérias. Que trágica ilusão!

Eu também me enganei e, longe de diminuir o sofrimento, ele aumentou e se tornou muito mais profundo aqui no espaço onde não há noite nem dia, onde não se pode dormir, pelo menos. São milhões de desgraçados que, como eu, se debatem nas trevas da amargura; amargura que, além de tudo é inútil, porque ninguém morre. Aqui, se vive, mais vivo que nunca. Aqui, sim, se sofre!



Sejam fortes vocês, que estão lendo estas páginas! Quando forem vítimas do sofrimento, afugentem a idéia do suicídio porque se nele caírem, será aberto diante seus pés, o mais tenebroso inferno!"
Mousinho de Albuquerque, comandante das forças triunfantes de Chaimite.

Suicida, nos conta suas experiências de além túmulo:


"Eu, que não tremi diante de milhares de guerreiros africanos, senti-me covarde diante da velhice. Ela ia se aproximando e não me sentia forte para enfrentá-la. Quis fugir. Sentia medo feito criança. Eu não acreditava que a alma podia continuar viva depois que o corpo estivesse morto. Grande engano! Quando pensei que o descanso fosse chegar, o que veio foi tão grande martírio, que não existem palavras que o definam. Eu que pensava escapar da luta, fui cair bem no meio dos inimigos e estava cheio de dores, em sofrimentos horrorosos! Era como se a bala que me perfurou o cérebro não acabasse nunca sua trajetória terrível. Tinha a impressão que o eco do tiro, aumentado muitas vezes, jamais eu fosse parar de ouvir. E os remorsos! Estes, queimavam como ferro em brasas. Eu me punha a correr e gritar feito louco. Mas ninguém me via, nunguém me ouvia.

Hoje eu te falo, amigo a quem nunca conheci na Terra. Falo e sabes que digo a verdade. Acautela-te contra o orgulho. Ele faz amar a vaidade, pela porta dos últimos sofrimentos — os sofrimentos mais pavorosos — o suicídio."


Comentário: Mousinho, lendário herói de tantas batalhas, achou romântica a idéia de matar-se para não ser derrotado por inimigo algum — nem pela Morte.Não esperaria por ela; iria ele mesmo ao seu encontro, para não ser derrotado nunca.

Das suas falas, ressalta um ponto muito significativo: como soldado ele foi áspero, violento, cruel. Matou e mandou matar muita gente. Semeou horrores, espalhou misérias, lágrimas e sangue. No entanto, nas suas palavras, no seu testemunho após a morte não se refere a sofrimentos causados pelas maldades que praticou. Não falou uma única vez em angústias ocasionadas pelo sangue alheio que espalhou. Mas se queixa do suicídio. Seus sofrimentos todos foram provocados pela morte espontânea e não pelas mortes que causou. Este ponto é revelador: o suicídio é cobrado milhares de vezes mais que os assassinatos que se possa cometer.
Aqui, outro tipo de horror que pode acontecer ao suicida: ficar ligado ao corpo sem poder se mover, sentindo toda a decomposição da carne, sentindo a dor de milhões de mordidas de vermes em todas as partes do corpo. Olhos, nariz, boca, ouvidos sendo comidos aos poucos, em meio a dores terríveis como alfinetadas; o cheiro da carne podre, até que ela se deteriore, até que seja consumida completamente.
O caso a seguir foi narrado pelo próprio suicida a um amigo

pedindo-lhe que publicasse tão dramática exposição, servindo de alerta a quem pensa em suicídio:


"Sou Jacinto, seu amigo, morto há vinte e cinco anos. Matei-me com um tiro nos miolos. Lembra-se de mim? Na véspera de meu suicídio estive no seu escritório e contei-lhe sobre minha vontade de acabar com a vida. Você me aconselhou mas seus conselhos, tive a loucura de não seguir. No dia seguinte, matei-me. Venho agora, dizer-lhe o que é o suicídio e pedir-lhe que escreva e publique tudo, para alertar aos outros loucos que têm em mente, a idéia de fugir da vida.

No dia em que me matei estava desesperado e você sabe os motivos. Ajeitei o revólver no céu da boca. Dei o tiro, mas verifiquei ainda estar vivo, sentindo dores agudas e ouvindo os gritos dos meus familiares — mas não podia me mover.

Continuei com o corpo morto, mas sem poder me separar do cadáver. Assim paralisado assisti aos funerais, ouvi os lamentos e as recriminações dos presentes, pelo meu ato. Horrorizado, vi fecharem o caixão sobre mim. Fui conduzido, assistindo a tudo e sempre sentindo a dor do ferimento na boca. Carregaram-me ao cemitério, enterraram-me e me deixaram sozinho. Senti a sufocação do fundo da cova, mas não podia fazer o mais leve movimento. Estava colado ao corpo morto!

As dores que sentia eram fabulosamente insuportáveis. E, logo a seguir, passei a sentir o cheiro do corpo apodrecendo. Senti a mordedura dos vermes, milhões de mordidas ao mesmo tempo, por todo o corpo. Dores incríveis!

Muito tempo depois a carne foi separando dos ossos, foi se acabando e eu sempre ali, sentindo as dores e assistindo a tudo. A sede, a fome e o frio me torturavam. A dor do ferimento da boca nunca me abandonou. Jamais tive um único minuto de descanso, em que pudesse dormir.

O jazigo foi aberto duas ou três vezes para a colocação de cadáveres de pessoas da família. De quem? Nunca pude saber, porque não conseguia ao menos ir olhar quem estava enterrado ao meu lado.

Nestes últimos dias, fui libertado! Vou continuar minha condenação em outro lugar. Antes disso, aqui estou para pedir-lhe que diga aos que sofrem, o que é o suicídio. Esta é minha contribuição ao mundo.

Rio de Janeiro, outubro de 1917."


Srª F. suicida no Rio de Janeiro, aos trinta e dois anos de idade.

Deixou o marido e um filho pequenino. Matou-se ingerindo formicida. Depois de catorze anos, ela conta:


"Logo que a morte aconteceu, eu não podia mover um dedo mas permaneci lúcida o tempo todo. Ouvia os lamentos do meu marido e o choro do meu filho. Os remorsos vieram logo em seguida. Quando o corpo saiu para o necrotério tentei permanecer em casa, mas não pude. Era como se estivesse amarrada ao cadáver. Chorando feito louca, notei estar sendo levada a uma mesa, para autópsia. Vi-me sem roupa, completamente nua e tremi de vergonha. Vergonha e terror ao ver dois homens me abrindo a barriga, sem a menor cerimônia. Não sei o que doía mais: se a vergonha por ver-me sem roupas em frente a estranhos que me retalhavam, ou se a dor que sentia a cada golpe do instrumento cortante que me rasgava a carne. Eu, que horas antes estava no conforto da minha casa, tive de suportar as duchas de água fria nos órgãos expostos, igual a um porco morto.

Assisti ao meu próprio enterro, com um terror difícil de ser imaginado. Depois, senti-me embaixo da terra, como se estivesse enterrada viva. Debatia-me querendo sair daquele lugar abafado, escuro e cheio de lodo.

Não sei por quanto tempo estive na cela do sepulcro vendo, hora a hora, a decomposição dos meus restos.

Depois de muito, muito tempo, consegui me levantar. Estava com fome, com sede, fraca e machucada. Nisso, me vi cercada por uma legião de espíritos maus que me deram voz de prisão. Disseram que o suicídio é falta grave, que eu seria julgada e deveria acompanhá-los ao tribunal. Obedeci. Logo após, estava encarcerada em tenebrosa caverna, onde já choravam muitas outras vítimas.

Aqueles malfeitores abusaram de mim, da minha condição de mulher, sem noção alguma de respeito ou piedade.

Só depois de muito tempo, depois de muito remorso, choro e oração, obtive o socorro dos espíritos elevados que me internaram em lugar de tratamento. Após me sentir melhor, pedi permissão para visitar minha casa, marido e filho. Mas, tremenda surpresa! Eu, que me matei por ciúmes do meu marido, vi-o casado outra vez, justamente com a rival que eu detestava! Em nada adiantou o meu suplício!

Sofri muito em meu orgulho abatido. Hoje porém, já percebo que aquela mulher possui muitas qualidades. Eu a amo como se ama a uma irmã e a agradeço por dar ao meu filho, os carinhos que me recusei a dar."
Luís Alves, enfermeiro sem família. A solidão e a pobreza o levaram ao suicídio com um tiro no coração, aos trinta anos de idade. Depois de vinte e seis anos, ele relata seus padecimentos. Eis alguns trechos:
"Depois da morte me vi vivo, ligado ao corpo! Por não ter parentes nem amigos que me fizessem o enterro, meu cadáver foi entregue como indigente a uma Escola de Medicina, servindo de cobaia aos estudantes, futuros médicos.

Como já disse, minha alma estava ligada ao corpo. Eu tentava me afastar, mas continuava colado à carne sentindo tudo o que se passava com o cadáver, como se estivesse vivo. Meu corpo levantou grande curiosidade, porque meus tecidos, músculos, vísceras e pele tinham aspecto diferente dos demais cadáveres. Dezenas de médicos estudavam o meu corpo e se sentiam indecisos, dizendo que ele era mais consistente, mais vivo, não se deteriorava com a mesma facilidade com que estavam acostumados a ver. Não sabiam eles que a minha presença constante era quem mantinha meu corpo com aquele aspecto.

Ninguém da Terra pode calcular o martírio de um espírito preso ao corpo sendo indefinidamente molestado como eu o fui, por aqueles estudiosos de Anatomia. Fui aberto, cortado, retalhado em todos os órgãos, em cada centímetro de pele. Eu gritava de dor, chorava, reclamava, mas não me ouviam, nem sabiam que eu estava aí. Eu escutava o que diziam a meu respeito; alguns, tinham palavras de carinho para comigo, e outros me sacudiam de vergonha e sofrimento, com pensamentos, gestos e palavras que me ofendiam e feriam minha triste nudez.

Com o passar do tempo, as carnes foram sendo desgastadas e somente o esqueleto ficou. Alguns professores e médicos que haviam se afeiçoado ao meu caso particular guardaram-no por ser original, firme, diferente dos demais. E continuei na minha prisão de ossos.

Quase sempre, novos aprendizes e estudiosos vinham fazer estudos sobre minha carcaça. Mas o pior eram as outras visitas que eu recebia dos espíritos inferiores, seres satânicos, que zombavam de mim, rindo às gargalhadas do meu estado de prisioneiro.

Vinte e seis anos de sofrimento! Assim que pude me libertar, o esqueleto, sem minha sustentação, caiu no piso da sala, fazendo-se em pedaços; e um velho professor mandou que fosse queimado.

Finalmente, como passarinho, eu estava livre da minha gaiola de ossos!"
Agora, outra modalidade de suplício, relatada pelos próprios que passaram por ele: o espírito não consegue sair do lugar onde se suicidou. E passa a repetir o gesto suicida e a sofrê-lo, indefinidamente.
O caso da quitandeira
Ela era casada, tinha filhos. O marido era violento, mau, jogador, ébrio, não trabalhava e obrigava a esposa a sustentá-lo, a sustentar a casa e os filhos. Insultava-a, espancava-a, espancava os filhos. Num dia, após uma briga em que foi novamente espancada, ela não suportou mais. Feito louca correu para a linha do trem, no momento exato em que ele se aproximava. Atirou-se sob suas rodas.

Sentiu suas carnes sendo dilaceradas. Viu cada parte do corpo sendo separada do resto, cada pedaço se esparramando ao longo dos trilhos. Viu-se desfeita, esmagada em pedaços ensanguentados e, coisa horrível! Sentia que não morria!

Viu chegar gente gritando. Viu chegarem as autoridades. Viu que examinavam seus restos. Assistiu quando juntaram seus pedaços e os colocaram numa caixa de madeira. Ela gritava mas não a ouviam, não lhe atendiam. Agarrava-se às pessoas para mostrar que estava ali, viva, mas não percebiam sua presença. Todos se afastaram. A caixa contendo seus pedaços foi removida. Ficou sozinha, sem conseguir se afastar dali. E foi então, que seus sofrimentos começaram, de verdade!

Ouviu novamente a chegada do trem - um trem que só existia em sua imaginação - e, sem poder se conter, atirou-se à sua frente. Sentiu-se novamente sendo esmagada, ouviu os ossos sendo triturados outra vez, as carnes sendo cortadas, em dores medonhas.

O trem foi embora, e lá veio ele outra vez! E a mulher sendo esmagada, outra vez. Tudo outra vez, outra vez, milhões de vezes, sempre, sempre, sempre. A cada minuto vinha o monstro de ferro e a cada minuto ela se atirava embaixo, repetindo a agonia.

E, entre um trem imaginário e outro, a mulher via ao redor de si seres hediondos que riam, que a empurravam, que zombavam por haver ela fugido da vida física. Pareciam demônios e ela se apavorava, com medo de ser levada ao inferno. Mas lá vinha o trem e ela se atirava sob suas rodas, sendo esmagada. Após o trem, aqueles demônios repetiam seus atos aterrorizantes. Sempre rindo, zombando, uivando, diziam-lhe que seriam seus eternos companheiros, porque também eles haviam se matado pelas próprias mãos.

E o trem a passar sobre ela, a esmigalhar cada centímetro de seu corpo. E aqueles seres que a perturbavam. Não parava mais. Para aumentar tantos suplícios, ela ouvia o choro dos filhos espancados pelo pai, ouvia suas crianças chamando mamãe. E ela que pensava que os tormentos com o marido eram grandes demais!

Quanto tempo durou aquilo tudo? Anos. Longos anos sem dia, sem noite, sem descanso, sem tréguas, até que foi esgotado o tempo que ela deveria viver sobre a terra. Só então pôde ser removida para outro lugar, onde passou das dores físicas às dores morais do remorso, do arrepedimento; dores mais profundas e dolorosas que as anteriores...


Todos os candidatos ao suicídio se enamoram da idéia de maneira tão apaixonada, que muito dificilmente conseguem se afastar daquela tentação. Mas nenhum outro espírito conseguiu definir tão bem tal apego à idéia, quanto Antero de Quental. Ele conseguiu colocar em palavras, o prazer que sentia em fazer-se de vítima, só para aumentar seus motivos ao suicídio. E ele consegue também transportar para palavras, aquela dúvida: Quem mata é covarde ou corajoso?
Antero de Quental, grande poeta português sucidou-se aos 49 anos de idade, em 11 de setembro de 1891. Suas amarguras foram muitas, pois uma doença o impedia de ter filhos e constituir família.

Vivendo entre moços alegres e sadios que faziam planos para o futuro e os realizavam, a ele era negada tal felicidade. O que você vai ler é resumo do que foi escrito por ele, dezesseis anos após o suicídio.


"Venho cumprir minha obrigação de levar aos tristes da Terra, um pouco da experiência que adquiri depois de tanto sofrer.

Muitas vítimas de doenças incuráveis ou de desgostos passam a odiar a vida e anseiam pela morte. Parece que sentem doloroso prazer em aumentar em si mesmos as causas do seu sofrimento, inventando novos males, novos motivos de dor, agarrando-se aos que já existem, mostrando sua fraqueza com lamentos amargurados, criando atmosfera de tristeza que parece não acabar, parece não ter fim a não ser com a morte.

Quando o sofredor pensa em suicídio, este ato maldito fica desde logo na sua cabeça, como esperança sorridente! Não pensa mais com paciência, calma e resignação. Não pensa nas pessoas amadas.

Nós, os suicidas, desprezamos todos os recursos que Deus nos forneceu para sairmos vitoriosos das amarguras. A tentação do suicídio é um pesadelo que nos toma acordados. Apossa-se de nós, nos domina sem nos deixar pensamento algum de esperança. Mas, mesmo a estes, Deus envia socorro na forma de pequenas esperanças, pequenos incidentes que, olhados com carinho, ver-se-ia neles a mão do Criador, nos auxiliando - e a idéia do suicídio seria abandonada. Quantos que me lerem, não terão passado por isso?

Desgraçadamente, quando tais ajudas divinas acontecem, nós preferimos ignorá-las, por serem pequenas demais ao nosso "tão grande" sofrimento. E, desvairados, colocamos um ponto final na vida. Um pouco mais de calma e a tempestade teria passado.

Eu fui um destes. Cada nova desilusão me fazia alimentar com maior carinho, a idéia do suicídio. Por fim, já nem precisava de motivos. Eu os inventava, naquela vontade louca de me torturar. Sentia alguns alarmes da consciência e não percebia que estes alarmes eram a grande mão de Deus afastando de mim, os planos de morte. Era Ele me pedindo calma e paciência.

Por fim, consegui calar a voz da consciência. Eu escondia de todos o meu desejo louco de morrer, com receio que me convencessem do contrário. E, vencido, tomado da máxima covardia, cedi.

E dizem que o suicídio não é covardia! O suicida foge da vida. E quem foge é covarde!

Não se diga também que, para o suicídio, é preciso coragem. Não! Quem se mata não busca a morte. Busca é a libertação para o sofrimento, busca a fuga da luta que não tem coragem para sustentar. Eu cedi a esta fraqueza e sofro agora, a consequência.

Ah, se soubessem os que me lêem, o preço que se paga por esta covardia, nunguém se suicidaria. Os maiores martírios da Terra são doces consolações quando comparados aos mais suaves sofrimentos de um suicida."


E há os que buscam o suicídio para se juntarem ao ser amado que morreu! Ah, se soubessem que, assim, sem fé, sem confiança em Deus, estão apenas prolongando por séculos até, o tão sonhado reencontro!
Júlio César Machado, escritor lusitano, possuía um filho — Julinho — que era toda a sua felicidade.

A criança morreu e o pai suicidou-se, para ir mais depressa ao seu encontro.

Eis as palavras do próprio pai, quando conseguiu se comunicar com a Terra!
"Não podia viver sem ele e saí à sua procura, mas a Morte me envolveu e me arrastou. Fui levado por um turbilhão. Fui levado a regiões medonhas. Outras vezes, voltava sem querer aos lugares de onde queria fugir e onde tudo me fazia lembrar minha desgraça, não conseguindo a mais leve indicação sobre meu filho. E nem tinha esperança de morrer porque, para mim, a morte não exisitia mais.

Até hoje corro, até hoje me debato a gritar, a gritar sempre pelo meu adorado filho e ele não me chega nunca.

Eu que me matei porque não podia viver sem ele, tenho de viver sem ele, porque me matei!

Não o verei mais? Horror! Horror! Mil vezes horror! Haverá justiça nesta condenação? Quem é o juíz bárbaro que não viu que, se eu buscava a morte, era porque minha vida, sem ele não era vida? Era crime amá-lo tanto? Mas, se o amor a um filho é crime, por que Deus nos deu o amor?

Perdoai, Senhor, se blasfemo. Mas, ó Deus! Tu, que és pai, Tu que és bom, por que não me perdoas? Não vês que a tentação armou meu braço? Que a tentação me levou à morte?

Mas se não posso ver meu filho, por que mo deste, Senhor? Se eu tinha de perder a felicidade, por que ma mostraste?

Que eu viva o tormento eterno; que eu me revolva nas agonias da dor, mas deixa-me ver meu filho!

Que eu o veja uma única vez e Te bendirei o nome!"


Preces aos Suicidas
Aqui, uma palavra aos familiares e amigos dos suicidas.

Como se viu, eles não estão perdidos para sempre nem no fogo do inferno eterno, como sempre se supôs. Eles continuam a existir; em sofrimento, mas continuam vivos; e serão socorridos, porque suas penas não são eternas.

E é só por meio da ORAÇÃO que se consegue aliviar suas dores.

A oração em seu louvor faz com que eles se sintam aliviados, sem sofrimentos, em paz, podendo até mesmo pensar em Deus e rezar também. As preces frequentes pelos suicidas ajudam-nos a passar por aqueles anos todos que têm pela frente.

A ORAÇÃO é, portanto, a porta que Deus deixou aberta para contato com nossos mortos queridos.
Vejamos dois escritos onde entra a prece, como fator de ajuda aos suicidas:

A Srª. Maura Araujo Javarini suicidou-se em 11 de maio, 1932, na cidade de São José do Rio Preto, Estado de S. Paulo. Sua morte foi por envenenamento. Na época, o catolicismo não permitia a entrada de suicidas na igreja para as orações habituais. Depois de 29 anos, ela psicografou uma mensagem à Terra. É importante o seguinte trecho de sua mensagem:
"Foram as preces de meu pobre João (marido) e dos nossos irmãos Antonio Marino e Farid Mussi, que me levantaram... (Livro: "Vida no Além" — Francisco Cândido Xavier).
Voltemos ao livro "Memórias de um Suicida", ao texto de Camilo Castelo Branco. Nesta parte da narração, ele já havia saído do Vale dos Suicidas e se encontrava num Hospital do Espaço, recuperando-se. Ele escreve, à página 83:
"Recebíamos as preces, os votos de melhoras e pensamentos de paz que nos vinham dos entes queridos deixados na Terra, de quem se interessava sinceramente por nosso restabelecimento. As preces vinham até nós através de uma maneira muito interesante: havia em cada dormitório um aparelho muito parecido aos aparelhos de televisão, em cuja tela transmitia todas as imagens e sons que nos eram dirigidos em orações. Quando, na Terra, alguém se lembrava de orar por nós, imediatamente, sua imagem aparecia na tela e ouvíamos o som de suas orações, pedindo a Deus que nos iluminasse os caminhos, dando-nos calma e paciência para suportarmos os sofrimentos. Muitas vezes, apareciam pessoas que nem sempre foram muito ligadas a nós, mas que rezavam fervorosamente em nosso benefício, enquanto que muitas outras pessoas, a quem devotamos grande estima, nunca - ou raramente - apareciam, para aliviar as asperezas de nossos infortúnios..."
Através destes dois trechos, ficamos sabendo dois pormenores importantes:

1- O suicida sabe quem está lhe enviando preces. A Sra. Maura Javarini chegou a escrever na sua mensagem, os nomes das três únicas pessoas que oraram por ela: o marido João, mais os senhores Antonio Marino e Farid Mussi.

Já Camilo Castelo Branco fala que a pessoa em oração aparece numa tela enquanto reza por eles.

2- As orações os auxiliam muito, colaborando com seu adiantamento e alívio. Quando nossas orações são feitas em benefício deles, há como que uma pausa em suas agonias; conseguem uma atmosfera de paz em torno de si, conseguem se lembrar de Deus e orar. O único momento em que o suicida tem trégua é quando alguém daqui da Terra lhes envia orações e pensamentos de paz.
Você que me lê também é responsável.
É responsável pela vida de seus familiares, vizinhos, amigos.

Como o futuro suicida pode não aparentar nenhuma tendência para este tipo de ato, o melhor seria que todos fossem atingidos pela presente mensagem.

Salve uma vida! Salve muitas vidas!

Faça cópias desta mensagem. Se não puder fazer muitas, faça ao menos uma cópia e distribua entre seus patrões, colegas de trabalho, clientes, funcionários, parentes, conhecidos, desconhecidos, amigos e não amigos. Distribua em escolas, hospitais, penitenciárias, asilos, clubes recreativos.

Envie cópias pelo correio.

Mande por e-mail a todos os seus correspondentes de sua cidade, outras cidades, outras regiões, outros estados, outros países.– e peça que eles mandem a outros amigos, peça que repassem, repassem, repassem.

Peça que seja lido.

Vamos todos, numa corrente de AMOR AO PRÓXIMO, trabalhando em conjunto, diminuir o número de suicídios.



Vamos fazer diminuir o número de almas que sofrem no Além-Túmulo.
Você também é responsável!

Cleunice Orlandi de Lima

Rua Armando Sales de Oliveira, 19-43;Centro

15130-000; Mirassol; SP,

Fone: (017) 3242-1437
Livros consultados:

1- Memórias de um Suicida — Yvone A. Pereira

2- Os Martírios dos Suicidas — Almerindo Martins de Castro

3- Vozes do Grande Além — Francisco Cândido Xavier

4- Estante da Vida — Francisco Cândido Xavier
"Cumpro o dever sagrado de falar tão somente as que sofrem e pensam em procurar descansar no suicídio. Cumpro o dever de falar a verdade sobre o abismo que espera cada um dos ingênuos que procuram se desviar dos sofrimentos terrenos, pela porta da morte espontânea."
"Imaginai uma localidade, uma povoação envolvida eternamente por densa penumbra gelada, onde se aglomeram tétricos fantasmas suicidas erguidos do túmulo! Pois era assim a multidão de criaturas que eu tinha por companheiros —e também eu, já esquecido do meu orgulho, pertencia a tão repugnante massa; também eu era um réprobo; também eu era um feio, um alucinado, um pastoso como os demais!"
"Quando, na Terra, alguém se lembrava de orar por nós, imediantamente sua imagem aparecia na tela e ouvíamos o som de suas orações pedindo a Deus que nos iluminasse os caminhos, dando-nos calma e paciência para os sofrimentos. Muitas vezes apareciam pessoas que nem sempre foram muito ligadas a nós, mas que oravam fervorosamente em nosso benefício enquanto que muitas pessoas a quem devotamos grande estima, nunca - ou raramente - apareciam para aliviar as asperezas dos nossos infortúnios."
"Coragem, peregrino do pecado! Aprende de uma vez para sempre que és imortal e que não será pelas portas desconhecidas do suicídio, que encontrará o porto da verdadeira felicidade..."

Camilo Castelo Branco



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